Os calcanhares de Trump

Sérgio Montenegro
Jornalista e consultor de mídia

Publicação: 19/11/2016 03:00

Quatro décadas atrás, o cientista político Roger-Gérard Schwartzemberg lançava na França O Estado Espetáculo, ensaio no qual descrevia alguns estereótipos teatrais adotados por políticos em campanha para atrair o eleitor. Membro do Parlamento Europeu e ministro nos governos Mitterrand e Jospin, ele aprofundou o estudo em quatro modelos: o herói, o homem comum, o líder charmoso e o grande pai. E a cada um, atribuiu exemplos de políticos que fizeram história nos seus países, como De Gaulle, Stalin, Mao, Kennedy, Sadat, Moro, Fidel, entre outros.
Schwartzemberg, porém, apresentou apenas fórmulas compartimentadas. Não previu os efeitos que uma eventual mistura de dois ou mais desses perfis poderia exercer sobre os corações e mentes do eleitorado. Pois foi exatamente o que fez o republicano Donald J. Trump. Megaempresário, especulador imobiliário, showman na TV, há pouco mais de um ano ele anunciava sua disposição de concorrer à Casa Branca, declarando-se um “antipolítico” e surfando na onda da crise de representatividade política e do populismo de direita que se ergue sobre diversos países no Ocidente. A iniciativa, em princípio, foi minimizada e até tratada com certa ironia. Mas a visão que faltou aos adversários sobre o perigo que Trump então representava, sobrava ao magnata nova-iorquino, que já carregava consigo uma boa noção da mídia-espetáculo, adquirida como apresentador de sucesso, por mais de uma década, em um dos reality shows mais populares dos EUA.
Donald Trump não apenas rezou pela bíblia de Schwartzemberg, mas parece ter se ocupado de aprimorar a fórmula. Ciente do vácuo de credibilidade da classe política sobre uma sociedade praticamente órfã de novos líderes, ele montou um discurso baseado no tripé da recuperação econômica, retomada do desenvolvimento e liderança dos EUA e na indignação dos eleitores das classes média e trabalhadora norte-americana. Uma maioria silenciosa, descontente não apenas com os políticos tradicionais, mas com a política em si e, portanto, susceptíveis ao discurso nacionalista exacerbado, que rejeita imigrantes, refugiados e avesso às minorias étnicas e de gênero.
Entre essas fatias da sociedade Trump foi pavimentando sua candidatura, unindo duas das classificações estruturadas por Schwartzemberg em seu Estado Espetáculo. Do alto da sua fortuna – e sem esconder os meios, nem sempre republicanos, que emprega para mantê-la – foi construindo a imagem de “herói”. Como cabe aos salvadores da pátria, prometeu “fazer a América grande novamente” para seu povo e combater a exploração praticada pelas elites. Paradoxalmente, denominava-se representante dos excluídos, dos desempregados, enfim, dos órfãos da globalização econômica, dispondo-se a reerguer a autoestima desse eleitorado carente de um “grande pai” que o proteja. Não à toa, o duelo Trump-Hillary levou uma imensa massa de eleitores às urnas, em um país que adota o voto facultativo.
Dono de um ego gigantesco e com um temperamento explosivo e rude, Trump soube explorar bem o sentimento, ora de raiva, ora de impotência, de muitos norte-americanos, salpicando no discurso pitadas de protecionismo, xenofobia, intolerância e porções de um nacionalismo que é velho conhecido dos europeus do começo do Século 20. A mistura se tornou palatável aos tais segmentos silenciosos, e impulsionou o presidenciável ao “star-system político”, onde o status de supervedete se sobrepõe a doutrinas, ideologias e partidos. De magnata, tornou-se um improvável herói da classe trabalhadora, no país-símbolo do “capitalismo selvagem”.
Agora, porém, encerrado o espetáculo da eleição, fecham-se as cortinas e começa a vida real, e o showman – empossado presidente – precisará de apoio para governar. Como bem advertiu Schwartzemberg em seu livro, para cada estereótipo escolhido há, também, um tipo específico de derrocada, no caso de ruptura entre o prometido e o executado. O “herói” que descumpre promessas é rapidamente transformado pelos admiradores em vilão, enquanto o “grande pai” que frustra seus filhos é rebaixado à condição de padrasto, e logo abandonado por eles.
Ao misturar dois dos principais modelos teatrais, consciente ou inconscientemente, Donald Trump apostou alto. Porque se não conseguir cumprir na Casa Branca os compromissos assumidos no palco da campanha, terá que se preocupar não apenas com um, mas com dois calcanhares expostos. E sob o risco de descobrir da pior forma como a mesma plateia que aplaude pode, também, ser cruel com o protagonista do espetáculo.

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