Trump e Hegel

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 19/11/2016 03:00

Georg Hegel (1770-1831), filósofo alemão, foi autor de uma das mais influentes filosofias da história escrita até então. Ele defendeu que a humanidade convergia para uma situação onde o mundo seria regido pela razão. Antes de tal estado, haveria sempre uma contradição dialética entre o mundo real e o racional. Ela moveria a história da humanidade. O aperfeiçoamento das instituições seria a solução para essa contradição e por tal o processo condutor da história. Obviamente ele defendia que haveria sobressaltos nesse processo dialético, que gerariam recuos temporários na caminhada de longo prazo da humanidade. Eventualmente, contudo, esses desvios seriam revertidos dentro do processo dialético que move a história.
Essa teoria de Hegel foi duramente desacreditada com a ascensão do Nazismo e do Fascismo na década de 1930 na Europa. Qualquer padrão de evolução da humanidade em direção à racionalidade teria sido rompido naquele momento. A história, contudo, levou a uma reversão desse retrocesso e muitos passaram novamente a acreditar numa evolução da humanidade rumo ao racional. Hegel previu na sua teoria essas possíveis reversões temporárias da tendência de longo prazo.
Os processos sociais podem se tornar excessivamente complexos e geradores de inseguranças em algumas situações (crise profunda na Alemanha no caso do Nazismo) e por isso a maior parte dos seres humanos pode perder a capacidade de interpretar o mundo sob o ponto de vista racional e por tal exacerbam o papel de seus instintos mais imediatos nas suas decisões. Isso leva à redução da racionalidade na construção e composição das instituições, o que dá asas a populismos tipo o de Donald Trump. A eleição deste nos EUA, o Brexit, e as ascensões das igrejas evangélicas no Brasil e do islamismo no mundo, fazem parte desse mesmo fenômeno. Ou seja, a eleição de Donald Trump significa um retrocesso na evolução da racionalidade humana no sentido Hegeliano, mas há esperança de que a humanidade superá-lo-á, como o fez com o Nazi-Fascismo no passado. Vale destacar que certamente os estragos à humanidade serão bem menores, pois não há razão para acreditar que Trump levará à deterioração institucional dos EUA como ocorreu na Alemanha e na Itália sob o Nazi-Fascismo, apesar de todas as suas ameaças ao longo da campanha. Hoje o aperfeiçoamento da ordem institucional americana foi tal que um presidente não consegue desmontá-la.

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