As armas do sonho

Nagib Jorge Neto
Jornalista

Publicação: 18/11/2016 03:00

Nada de espanto, desencanto. Nem crença no começo, ou fim, do modelo que pouco ou nada muda na nova/velha ordem mundial. Era previsível, pois, o triunfo do apelo ao imaginário – resgate do sonho – à política do big stick (do porrete), do macartismo ou nazismo, com ataques às minorias étnicas, artistas e intelectuais. Na aparência era uma tática que parecia impossível, tosca, pois estariam consolidados os direitos e oportunidades no estilo de vida americano, ou ao menos na doutrina Monroe – A América para os Americanos.
Então surge o lado sombra, obscuro - do machismo, sexismo, homofobia e restrição de direitos – consagrando a vitória de Donald Trump que explorou com avanços e recuos a sua imagem de narcisista, demolidor, machista, capaz de resgatar os valores  americanos: a garantia de oportunidades e o poderio econômico e militar da maior potência do planeta. Noutras palavras, Trump escancarou a cortina do cenário da crise do sistema – desemprego e pobreza - da ação externa – golpes e intervenção - armas que contagiou o consciente e o inconsciente do “americano cordial” e motivou a adesão do arcaico Colégio Eleitoral, com 538 votos.  
Na prática, tornou evidente que agiria de forma direta para não perder espaço no processo de globalização, sem as dissimulações dos democratas, que usam grampos e grupos financeiros para golpear as instituições na América Latina, Ásia e África. De resto, cabe lembrar a ironia da década de 1960 – os democratas preferem ocupar países ou regiões pelo norte, com ajuda de embaixadores e políticos; os republicanos pelo sul, usando porta aviões, submarinos e tropas.
No curso da história recente, exceção apenas para John Kennedy (período final), antes da morte no Texas; promessa de Robert Kennedy (num evento em Carpina, Pernambuco) – assassinado na Califórnia por um jordaniano; as gestões de Jimmy Carter – Nobel da Paz - e Bill Clinton. Na fase Obama apoio ao mercado, aos “investidores”, para golpear as instituições e avanços no Cone Sul, tornando frágeis os discursos e garantias sobre democracia, liberdades e direitos humanos, tônica da campanha de Hillary Clinton.  
É inegável que os democratas, neste século, foram dissimulados, com alianças bélicas que tornaram infernal a vida no Iraque, Afeganistão, Líbia, Ucrânia e Síria. Afora isso, não pode causar surpresa a ascensão de Donald Trump, com promessas de protecionismo, restrição de direitos, críticas à mídia num jogo que fazia parte do seu esquema de marketing. Daí é provável que tenha relações liberais com a ordem global, até porque na prática o governo Obama agiu para inviabilizar os BRICS, apoiar o golpe parlamentar no Paraguai e no Brasil. De resto, vale a sentença de Vence Cavalo – personagem de João Ubaldo Ribeiro – “as forças da história se atribulam por caminhos ignotos”.

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