O grito das ocupações

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 17/11/2016 03:00

Eu morava na Itália em junho de 2013, quando iniciaram no Brasil as manifestações populares contra o aumento das passagens de ônibus. Estudantes saíram às ruas para protestar contra o aumento das tarifas de transporte público e, na toada das manifestações, somaram-se outros atores que protestavam por mais serviço público e de melhor qualidade, além dos insanos black blocks.
Acompanhei todo esse movimento à distância, e constantemente os italianos me perguntavam o que estava ocorrendo no Brasil. Eles não compreendiam a razão das manifestações, porque enquanto a Itália estava em profunda crise econômica e social, junto com outros países da Europa meridional, a notícia que se tinha (e que era real) é que o Brasil vivia uma situação de quase pleno emprego, o que me fez escutar de vários italianos a seguinte pergunta: _ o que você está fazendo aqui?
A insatisfação popular expressa nas manifestações de 2013 não impediu que a presidenta Dilma fosse reeleita em 2014, após o que se seguiu a história recente do golpe, a que já me referi em outras ocasiões.
Faço essa breve introdução, porque vejo uma diferença bastante simbólica entre o ato de jovens saírem às ruas em 2013 e o ato de jovens ocuparem as escolas e as universidades em 2016, a despeito de serem ambos expressão de resistência e luta democrática e de afirmação de cidadania.
Sair às ruas em protesto afirma uma luta de pertencimento em relação ao país. Representa uma tomada de consciência de cidadania e faz explodir um grito de mais liberdade, mais justiça e mais igualdade.
As ocupações de hoje afirmam uma luta de pertencimento em relação às escolas e às universidades públicas. Representam uma tomada de consciência do quanto se está prestes a perder e faz explodir um grito de “nenhum direito a menos”.
O grito “o Brasil é nosso por isso queremos mais e melhores serviços públicos” é muito diferente do grito “ as escolas e universidades públicas são nossas e por isso não queremos perdê-las”. O primeiro é um grito por mais inclusão, enquanto o segundo é um grito para não se tornar ainda mais excluído.
Sou solidária com a luta dos jovens em favor de suas escolas e de suas universidades. Prestamos o serviço público de ensino a eles e é exatamente por isso que considero simbólico o ato de ocupação. Os jovens estão procurando mostrar a todos nós brasileiros a quem pertencem as escolas e universidades públicas do país. Pertencem a eles, e é por isso que eles precisam ser escutados.
De nada ajuda desdenhar a ação dos jovens e fazer de conta que não tem importância a ocupação de 1200 instituições de ensino no país, como fez o presidente Temer. Nem adianta dizer que a pauta do governo é de diálogo e convencimento, e não abrir espaços de fala para que a luta dos jovens estudantes seja afirmada fora das ocupações. Não podemos deixar que a   fala dos jovens seja calada nas democracias, como é calada a fala dos grandes pensadores nos regimes totalitários.
Recentemente li uma entrevista feita com Ivan Klíma, escritor tcheco, que me fez refletir sobre esse assunto. Ele dizia: “O mais importante na personalidade de Kafka era sua honestidade. Um regime fundado no logro, que exige que as pessoas finjam, que quer o consentimento sem se importar com a convicção interior das pessoas que são obrigadas a consentir, um regime que tem medo de todo mundo que pergunta qual o sentido do que estão fazendo, não pode permitir que se faça ouvir alguém cuja veracidade era tão absoluta ao ponto de se tornar fascinante, ou mesmo assustadora”.

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