EDITORIAL » Por que não conseguimos vencer o racismo?

Publicação: 17/11/2016 03:00

Quando até a primeira-dama da nação mais poderosa do planeta é vítima de racismo, significa que este é um problema enfrentado pelo mundo inteiro, e que necessariamente não depende de renda per capita nem de nível educacional. A agressão contra Michelle Obama, mulher do presidente Barack Obama, foi semelhante àquelas que a gente vê em estádios de futebol, em postagens nas redes sociais, em comentários nas ruas, em que pessoas negras são comparadas a macacos. Ele foi o primeiro negro a eleger-se presidente dos EUA; ela, a primeira negra a ocupar o posto de primeira-dama.
“Será revigorante ter novamente na Casa Branca uma primeira-dama com classe, bela e digna... Estou cansada de ver uma macaca de salto alto”, escreveu a norte-americana Pamela Ramsey Taylor, referindo-se ao fato de a mulher de Donald Trump, Melania, ser branca e ex-modelo. Pamela é integrante do comitê de desenvolvimento da cidade de Clay, no estado da Virgínia Ocidental. A afirmação, por si só, já seria revoltante, mas a situação tornou-se ainda pior, porque a prefeita do município, Beverly Whaling, a endossou nos comentários, dizendo ter “ganhado o dia” com a postagem. Ontem, a imprensa noticiou que a prefeita renunciou. Ela tinha ainda três anos de mandato. Em entrevista, a prefeita disse que seu comentário não tinha nenhuma intenção racista: “Quando eu disse que havia ganhado o dia, referia-me à mudança política que chegará à Casa Branca. Lamento qualquer dano que eu tenha causado. Quem me conhece sabe que não sou xenófoba”.
Clay é um pequeno município dos Estados Unidos, mas a história protagonizada por duas de suas habitantes é universal. Pode substituir o nome “Clay” por outros de diversas partes do mundo e mesmo assim a história soará familiar para todos nós. Até as desculpas se parecem (“Quem me conhece sabe que não sou racista etc…”).
A amplitude geográfica do seu alcance mostra como o racismo está entranhado nas pessoas. Tão forte é que elas externam os comentários aparentemente sem se intimidar com as implicações legais do crime e do ato vergonhoso que estão praticando - o fazem contra atletas, atrizes e atores, políticos, autoridades… E nesta Era das redes sociais, não basta verbalizá-lo para amigos numa conversa ou no anonimato — é preciso extravasar o sentimento de forma a que a maioria das pessoas veja.
Na maioria das áreas, a humanidade avança a passos rápidos, sem dar espaço ao atraso. Em outras, como na questão do racismo, às vezes fica a impressão que o tempo passa e a gente não sai do lugar.

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