O papel geopolítico das cidades no século 21

Zeca Brandão
Arquiteto e urbanista, PhD pela Architectural Association School of London e professor associado da UFPE

Publicação: 16/11/2016 03:00

Com o fim das eleições municipais, renovam-se as esperanças no surgimento de um gestor genuinamente comprometido com a qualidade das nossas cidades. Um gestor que consiga navegar nesse mar de lama em que se transformou a política profissional e, ainda assim, seja capaz de responder as demandas técnicas cada vez mais complexas da cidade contemporânea. Um gestor ciente da inoperância real do populismo urbano e preparado para exercer o comando da prefeitura de uma cidade, cargo público que, pouco a pouco, vem se configurando como um dos mais importantes do século 21.
As primeiras cidades surgiram há cerca de 10.000 anos como pequenas aglomerações urbanas e desde então têm crescido e se multiplicado numa velocidade espantosa. Entramos no século 19 com apenas 3% da população mundial vivendo em áreas urbanas. Atualmente, somos mais da metade da população e estima-se que em cinco décadas atingiremos a incrível marca dos 80%. Podemos afirmar que estamos nos tornando, muito rapidamente, um planeta urbano.
Durante muito tempo, o poder de atração das cidades foi atribuído apenas à questões de ordem econômica. No final dos anos 1970, profissionais de Tecnologia da Informação (TI) chegaram a profetizar o fim da cidade, afirmando que a era digital libertaria as pessoas da necessidade de viverem no stress do ambiente urbano, e que elas realizariam os seus supostos sonhos de morar na tranquilidade do campo. Ledo engano, as cidades não desapareceram, ao contrário, continuam atraindo cada vez mais pessoas.
Sabe-se hoje que as cidades representam muito mais do que oportunidade de trabalho. Elas são, na verdade, um estímulo poderoso ao desenvolvimento pessoal, proporcionando o acesso à diversidade sócio-cultural, ao crescimento intelectual, à criatividade, à inovação e ao lazer produtivo. Nos países mais desenvolvidos, as novas gerações passaram a escolher a cidade onde querem viver antes mesmo da atividade profissional que querem exercer. As cidades, por sua vez, têm se esforçado cada vez mais para oferecer melhor qualidade de vida aos seus habitantes, com o objetivo de atrair profissionais mais capacitados. Em suma, estabeleceu-se uma grande competição entre as cidades globalizadas na busca de capital humano e financeiro, que frequentemente costumam caminhar juntos.
Infelizmente, a nossa realidade está bem distante disso. As cidades brasileiras ainda carecem de infraestrutura urbana, sistema de transporte eficiente, habitação social em escala, espaços públicos de qualidade e muitas outras necessidades básicas que as cidades globais já conquistaram no século passado. Portanto, nenhum prefeito, por mais bem intencionado que esteja, vai inserir a cidade brasileira nessa realidade internacional em um ou mesmo dois mandatos. Entretanto, é preciso iniciar a nossa caminhada o quanto antes, e para isso é fundamental que eles tenham consciência da relevância do seu cargo e do papel da cidade nessa nova ordem mundial. Assim como os Impérios já lideraram o mundo no passado e as Nações foram os principais atores geopolíticos do século 20, as grandes protagonistas do século 21 serão as cidades.

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