Pesquisa e situação política

João Maurício Adeodato
Professor de direito e pesquisador 1-A do CNPq

Publicação: 14/11/2016 03:00

As atitudes mentais dos juristas, cientistas políticos e outros supostos observadores do ambiente podem ser classificadas. Uma visão normativa tem como vetor o futuro, para o qual procura prescrever otimizações, melhorias na visão de seu autor, quer modificar, dirigir, influenciar o ambiente e a conduta das pessoas, em geral com objetivos idealistas que lhe parecem edificantes, para uma “realidade” que não existe e que jamais vai existir, porque o futuro é imprevisível, sobretudo quando estão na arena ações humanas.
Uma teoria que se pode chamar de escatológica é aquela que pretende utilizar o passado para descrever o futuro, isto é, compreender algo que ainda não existe a partir da observação daquilo que acredita ter acontecido; são perspectivas de inspiração “científica”, admiradoras do muito questionável sucesso das “ciências naturais”, que pretendem inserir o direito nas ditas “ciências” sociais, para as quais é possível explicar a sociedade a partir da “descoberta” de “leis” e nexos causais (etiologias) e assim prever situações futuras (escatologias). São idealistas travestidas.
Uma teoria analítica dirige-se ao passado, procura descrever os acontecimentos tais como parecem àquele que a expressa; é uma perspectiva menos ambiciosa, mas nem por isso livre de divergências, sobretudo quanto à sua característica de tentar abster-se de juízos de valor. É uma visão realista e empirista, de observador que não toma partido, jamais de jogador ou torcedor. Quando se consulta um pesquisador, não se quer saber de suas posições políticas, para isso existem partidos, agremiações e votos em uma sociedade democrática. O ambiente de pesquisa não é palanque para pontificar diante de minorias de jovens, que são, por definição, inexperientes e manipuláveis.
Não se pode conceder credibilidade a um pretenso observador, a alguém que procura explicar a situação política tomando parte em uma torcida por este ou aquele lado. Claro que uma pessoa que analisa algo é também cidadã e participante, mas essa condição tem que ser deixada de lado para se obter um mínimo de isenção e conhecimento. Não se pode dar ouvidos a um suposto jurista ou cientista social cuja psique é dominada por uma decepção que ele não quer ou acha que não pode admitir: passou anos ou décadas professorando “verdades” e relatando “fatos” sobre uma ideologia e um partido político, assinando manifestos, defendendo e tirando fotografias com pessoas que depois são corruptos condenados e presos ou simplesmente “ladrões”, na linguagem popular. Ou, no íntimo, acha que precisa justificar ao mundo ou a si mesmo vicissitudes biográficas suas ou de membros de sua família ou grupo social, diferenciando-se de um entorno comprovadamente “direitista”, “esquerdista” ou simplesmente corrupto. O conhecimento não funciona assim.
Como são dirigidos por ideais de futuro, os “intelectuais” normativos tendem a ter premonições: Eduardo Cunha e outros políticos não iriam presos porque teriam cumprido seu papel no “golpe”, Sérgio Moro faria parte de um complô para perseguir os defensores dos oprimidos, empresários não seriam condenados... Vivem numa bolha de wishful thinking. Os que torcem por Temer não ficam atrás.
Como admitir agora que o “cientista” se deixou enganar como um tolo? Seria preciso muita coragem. O impeachment tem que ter sido um golpe porque companheiros que pululam na internet (descrita por Umberto Eco como tecnologia que deu voz aos imbecis), em blogs e veículos outrora subsidiados, não podem sobreviver sem essa ideia, “acham” que foi, porque eles “sabem” que não houve “crime de responsabilidade”, “não houve corrupção” etc. É a sua “justiça”, o seu “bem”. Nada mais antidemocrático do que essas “verdades” solipsistas. Vão desaparecer na história.

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