O poeta Paulo Caldas e a produção da sua oficina literária

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 14/11/2016 03:00

Durante muitos anos convivi com o ficcionista Paulo Caldas, autor de ótimas novelas e contos chamados de “infanto-juvenis”, embora me pareçam autônomos, sem rótulos, de grande qualidade literária. Estivemos juntos na oficina de criação literária quando se declarou meu discípulo, mas na verdade tinha – sempre teve e terá – qualidades de mestre – o que não tenho, nem sou-, até porque só acredito em escritores de tempo integral, que não conhecem nem pausa nem repouso até que concluam a obra a que devota ou devotou a vida. É preciso não abrir mão para outros projetos, nunca se render ao cântico das sereias do mundo. Mesmo com todas as dificuldades é preciso  estar amarrado ao barco da literatura para não ceder.
Agora tenho sobre minha mesa seu primeiro livro de poemas Círculo amoroso cuja produção eu desconhecia completamente. A qualidade não me surpreende porque Paulo sempre foi muito estudioso, muito atento, cuidando das palavras, dos versos, das sentenças. Por isso tem alcançado tanto sucesso na sua oficina de criação literária. Aliás, enriqueço-me também com a breve antologia dos seus alunos: O dito pelo não dito, onde encontro textos de Márcio Mello, João Gratuliano Patrícia Freire, Maria Batista e Romulo César, iniciados de boa qualidade, com muitas horas dedicadas ao exercício da ficção e dos seus segredos.
De forma que me coloco aqui na condição de observador e de alguma maneira de crítico literário que examina este trabalho de poeta e de ficcionista experimentado, com seu esforço de oficina, já então consagrado com a publicação dos seus alunos. As oficinas de criação literária são importantes para o aprendizado literário, mesmo que seja recebido com alguma rejeição e muita crítica. Os iniciantes sempre precisam da orientação dos mais velhos, e é por isso que desde jovem nos aproximamos dos mais velho. dos mestres.  
Maupassant, por exemplo, se tornou discípulo do exigente Flaubert, numa dessas primeiras oficinas da  literatura universal. Costumavam ter encontros de horas até que Flaubert concordasse, minimamente, com aquilo que o aluno escrevesse. Até porque escrever ficção não é apenas juntar palavras, frases, parágrafos, É preciso conhecer bem os  personagens e o que ele fazem nas cenas, nos cenários e nos diálogos, nos cortes psicológicos, com função e com efeito. Tchecov, por exemplo, faz uma ótima advertência: “se você coloca uma corda na parede de uma cena, esta corda deve ter função e efeito, nem que seja para enforcar o autor”. Mas há autores, através dos seus narradores,  que carregam as cenas de penduricalhos, roubando-lhes a beleza e a força.

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