Populismo conservador e resistência

Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade de Oxford, professor de direito da UFPE

Publicação: 14/11/2016 03:00

Vitorioso na 2ª Grande Guerra, Winston Churchill candidatou-se. Esperava-se sua vitória pelo Partido Conservador. Mas foi Clement Attlee, o líder do Partido Trabalhista, quem se elegeu primeiro-ministro, em 1945. O esforço de guerra, com um gabinete de união nacional, foi fortemente suportado pelos trabalhadores, com racionamento, jornadas longas, sem aumento salarial. Chegara a vez de reivindicarem a sua parte, elegendo um governo mais sensível às suas reivindicações. Entre elas, o Estado de Bem Estar Social. Foi assim que o Relatório Beveridge (1942) deu origem ao National Health Service, que universalizou a saúde. Mais tarde, os governos conservadores de Margareth Thatcher e John Major tentaram desmontá-lo. Não conseguiram. Pelo simples motivo de que a sociedade, por suas organizações e pela difusa opinião pública, não aceitava a redução de um conquista civilizatória já incorporada à vida britânica.
Democracias maduras incorporam conquistas sociais que não são facilmente desmontáveis. A sociedade, as instituições e a opinião pública não deixam. Observemos o que ocorre na Escandinávia. Vez por outra os liberais e os conservadores substituem os socialistas. Quando o Estado Social dá sinais de excessos de carga tributária, eles dão uma “polida”, elegendo a ortodoxia. Para, logo depois, reeleger as forças comprometidas com políticas sociais de corte igualitário. Algo que ocorreu na França com a volta dos socialistas de François Hollande depois de Sarkozy.
Esses ciclos são tendências que, agora, precisam levar em conta os elementos novos advindos da globalização excludente. Nos EUA, a vitória do populismo conservador de Trump tem sido explicada por inúmeros fatores. A falta de carisma de Hillary. O excesso de intimidade dos Clinton com as altas finanças, dizem uns. Uma “onda conservadora” que varre o mundo de hoje, dizem outros. “O ascenso da globalização da antiglobalização, de uma frente popular dos populistas, de uma internacional dos nacionalistas”, como escreveu Timothy Ash, da Universidade de  Oxford, no jornal italiano La Repubblica. O populismo de Trump capturou a vontade de mudar um regime econômico e as suas políticas que deixaram tantos americanos de fora da globalização e da prosperidade, como pôs a The Economist. A falta de conexão dos políticos de Washington e da mídia com uma maioria que se sente sem perspectivas de melhoria de vida. Os erros da campanha de Hillary, que subestimou estados como Michigan e Wisconsin e perdeu os votos dos desempregados das fábricas fechadas. O erro de não ter escolhido um vice como Bernie Sanders ou Elizabeth Warren, capazes de levar mais jovens às urnas por terem mais compromisso com o combate às elites dirigentes. 
Nada disso foi capturado pelas pesquisas. Havia uma maioria silenciosa que  atribuía os excessos de Trump a invencionices da mídia ou à prova de que ele era um outsider à política. No dia seguinte, a imprensa já especulava sobre um Trump mais moderado. Começava a perceber que nem todas as loucuras da pós-verdade do candidato poderão ser implementadas pelo presidente. Isso não deixa de preocupar o mundo, todavia. É lógico que, depois de Obama, com sua sofisticação intelectual e compromisso com os melhores valores, a personalidade pequena e egoísta de Trump ameaça conquistas. Sobretudo as relativas à universalização da saúde e os direitos dos imigrantes. Mas as mobilizações já iniciadas em praça pública mostram que a sociedade não vai aceitar todo o regresso social desejado pelo magnata acostumado a impor sua vontade pela força do seu dinheiro. Logo-logo ele vai ver como é mais complexo o exercício do poder numa sociedade democrática. Verá que as decisões devem ser tomadas com base numa equação com muito mais variáveis que apenas a sua vontade e o cálculo de lucro das Trump Towers. Esperemos que seu radicalismo retrógrado não consiga desmontar conquistas importantes que afetam a humanidade como um todo. Que a sociedade resista.

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