EDITORIAL » Um olhar humano sobre o Coque

Publicação: 14/11/2016 03:00

Os olhos sensíveis dos meninos e meninas do Coque, na Ilha Joana Bezerra, no Centro do Recife, têm poder. Atentos, observam poesia e humanidade onde poucos têm interesse em fazê-lo. Transgridem, com esse ato simples, o senso comum. Fortalecem-se de orgulho e tornam-se mais capazes de seguir em frente, no sentido contrário aos preconceitos. O exercício do olhar diferenciado em um bairro condenado como violento, ao longo da história, é possível graças a um projeto de uma professora de artes da Escola Municipal Professor José Costa Porto.
Lucélia Albuquerque, 34 anos, formada em artes cênicas, colocou máquinas fotográficas feitas com latas de leite nas mãos dos jovens e lhes ofertou uma tarefa: fotografar os lugares mais agradáveis da comunidade. Na caminhada, os alunos, de 7º e 8º anos, sentiram amor pela praça do bairro e pela Academia da Cidade. Também fotografaram a Ponte Gregório Bezerra, que liga o bairro à Ilha do Retiro. E outros tantos trechos.
O próximo passo da atividade foi revelar tais olhares. Por dois dias, a professora interditou, com autorização, o banheiro da escola para transpor as imagens para o papel. Justifica: precisa de água corrente para o trabalho fluir.
A professora Lucélia usa uma câmara pinhole, uma máquina fotográfica artesanal sem lente. A prática, econômica e simples, permite o uso de qualquer caixa onde a luz não penetre. A teoria e a proposta são ensinadas na sala de aula. Somente depois os estudantes seguem para campo.
O mais inspirador de toda o projeto, desenvolvido pela professora na escola desde 2011, é que dois alunos da Costa Porto participaram, na semana passada, da 22ª edição da Ciência Jovem, uma das maiores feiras de ciências do país. Rayane Gomes, 13 anos, que pretende ser jornalista, e Mateus Fernandes, 14, que pensa em ser fotógrafo, ambos do 8º ano, não tiveram premiado seu projeto Foto na latinha: olhares do Coque. Mas suas participações inéditas no evento, que envolveu alunos de todo o Brasil e de cinco países do mundo, também são como troféu. Um troféu valioso, para ser compartilhado entre os outros jovens moradores do Coque. Por uma boa dose de autoestima e de humanidade na comunidade.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.