EDITORIAL » O dicionário da realidade

Publicação: 12/11/2016 03:00

0 jornalista Ambrose Bierce foi um mestre da palavra amarga. Saiu de cena sem deixar rastros no México no dia 26 de novembro de 1913. Aos 71 anos de idade, ele havia resolvido ver in loco a revolução provocada por um tal de Pancho Villa. Nunca mais foi encontrado. Dizem até que foi fuzilado. Escritor dos bons, sua obra mais emblemática é O dicionário do diabo, uma série de definições sarcásticas sobre a natureza humana. No Brasil, este livro – publicado originalmente em 1906 nos Estados Unidos com o título O livro das palavras de um cínico e, em 1911, rebatizada como O dicionário – está difícil de ser encontrado até nos sebos. A última edição nacional data do início da década de 1970, pela editora Mercado Aberto. Nestes tempos de acirramentos provocados por disputas eleitorais, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos - terra natal de Bierce - vale a pena conhecer algumas das definições cunhadas por ele. Caem como uma luva quando um bilionário se elege prometendo erguer muros para isolar justamente o México, o lugar onde o escritor perdeu as botas, mas não a atualidade.
Segundo Bierce, um político é  uma “enguia na lama primordial sobre a qual a superestrutura da sociedade organizada é construída. Quando balança o rabo, geralmente acredita que pode abalar o edifício. Em comparação com o estadista, sofre a desvantagem de estar vivo”. O radicalismo é “o conservadorismo de amanhã injetado nos assuntos da atualidade”. O voto é “instrumento e símbolo do poder do homem livre de fazer de si mesmo papel de bobo e de seu país uma ruína”. A justiça é “artigo mais ou menos adulterado que o Estado vende ao cidadão, em troca de sua lealdade, impostos e serviço pessoais”. O patriota é “aquele que considera superiores os interesses da parte do que os interesse do todo. Joguete de políticos e instrumento de conquistadores”. O conservador é “um estadista que gosta das coisas más que existem, por oposição ao liberal, que as quer substituir por outras”.  Uma aliança é a “união de dois ladrões com as mãos tão enfiadas nos bolsos um do outro que já não conseguem roubar um terceiro separadamente”. Por fim, um fanático é “alguém que sustenta de maneira diligente e intransigente uma opinião diferente da nossa”.
Ele faria até sucesso nestes tempos de redes sociais com suas tiradas sarcásticas, ampliando o seu dicionário. Mas o mundo deu uma guinada para o conservadorismo em uma época onde supostamente a informação mais circula. Sem espaço para Bierces. E nem Panchos Villas.

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