Uma ode à dignidade

Lázaro Guimarães
Desembargador federal

Publicação: 11/11/2016 03:00

Uma lenda percorria bares e cabarés da Bahia nos anos 60. Boêmios contumazes, artistas, estudantes, intelectuais tinham entronizado o nome do poeta Carlos Anísio Melhor, cujos poemas então só eram conhecidos pela publicação nos suplementos literários, embora recitados nos saraus que naquela época eram comuns nos encontros noturnos que prosseguiam no amanhecer dos mercados – Modelo e Sete Portas, ou na Kombi estacionada na Praça Castro Alves, nos quais se serviam de feijoada, sarapatel, caranguejo até lambreta, o prodigioso molusco precursor do Viagra.
Ruy Espinheira Filho, poeta consagrado, recorre outra vez à prosa, em O Príncipe das Nuvens – uma história de amor ditada pelo espírito do poeta c.a. maior, para recordar aquele tempo conturbado e heroico, revivendo a figura de Carlos Anísio, Poeta Maior, como é reconhecido, utilizando técnica literária que já fora empregada por Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas e, recentemente, por Philip Roth, em Indignação, mas recebe tratamento especial, eis que mesclada de explicações em notas do autor, companheiro de jornadas do vate protagonista.
O romance é intenso e carregado de lirismo. Nele se encontram, além do Poeta Maior e sua musa principal, Isabel, personagens inesquecíveis como o pintor Ângelo Roberto e sua devoção a Vincent van Gogh; o livreiro Loureiro, dono do sebo mais famoso do Brasil; Secundino, proprietário do bar e protetor das finanças de Carlos Anísio, que vendia uma por uma as casas recebidas de herança, para consumir em bebida com os amigos; Sanches, da Funerária Tricolor, empresário e torcedor fanático do Bahia; Arlete e suas meninas, que vendiam o corpo, algumas de alma pura.
Perpassam na narrativa alusões à violência policial daquela época, apesar de o Poeta Maior somente ter sofrido pequenas incursões da ditadura, pois os delegados baianos da repressão o consideravam maluco. Não valia a pena prendê-lo nem o torturar. Carlos Anísio, na verdade, teve que ser internado várias vezes, para desintoxicar, mas nesses recolhimentos produziu uma boa parte da sua Poesia.
O romance de Ruy Espinheira não tem viés biográfico, é obra de ficção, baseada na realidade e na imaginação. Nele são intercalados versos atribuídos ao personagem, apesar de criados pelo autor, ele também poeta maior. Dessa forma consegue reproduzir o talento e a criação de um grande artista ligado ao seu povo, à sua cultura e à cultura universal, numa ode à dignidade humana.

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