9/11

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 11/11/2016 03:00

Em 9 de novembro aconteceram coisas importantes. Em 1799, o 18 de Brumário de Napoleão – na Revolução Francesa. Em 1888, Jack, O Estripador, fez sua quarta vítima – Mary Jane Kelly. Em 1919, estreou no cinema o personagem Gato Felix. Nesse dia nasceram, em 1888, o pintor Jean Monnet. Em 1934, o astrônomo Carl Sagam. No Brasil, em 1911, a escritora Diná Silveira de Queiroz. Em 1919, a atriz Eva Todor. Em 1944, o poeta Torquato Neto – em honra de quem, depois de seu suicídio, Caetano escreveu “Cajuína”, se perguntando Existirmos, a que será que se destina? Morreram também nesse dia, em 1918, o escritor Guillaume Apollinaire. Em 1970, o general Charles de Gaulle. E, em 1964, a divina Cecília Meireles, Fiz uma canção para dar-te;/ Porém tu já estavas morrendo (“Canção póstuma”).
Dois acontecimentos se distinguem, nesse conjunto de eventos. Por serem começo de ciclos. O primeiro, em 1989, foi a queda no muro de Berlim. Com jovens levando para casa, como lembrança, pedaços de muro que foi responsável por 138 mortes. Um momento de diástole. De abertura. E não se tratou de evento apenas alemão, mas do mundo inteiro. A guerra fria findava ali. Um momento simbólico e icônico em que a globalização parecia definitiva, eterna e bela. O Século XXI começou naquele dia.
O outro momento foi a eleição de Donald John Trump. Ao contrário do 9/11 anterior, a globalização sofreu agora enorme golpe. Um momento de sístole. De contração. A voz da classe média americana gritando que não quer ser solidária com o resto do mundo. Que prefere viver para dentro de suas fronteiras. Com menos estrangeiros à sua volta. Especialmente latino-americanos e do Oriente Médio. Pior é que nem foi algo isolado. Antes dele tivemos o Brexit, com a Inglaterra saindo da Comunidade Europeia. Ou a derrota de Angela Merkel, na Alemanha. São manifestações similares.
Volto os olhos para nosso Brasil. E me pergunto se essas eleições de outubro teriam (ou não?) seguido na mesma trilha. As explicações mais óbvias, para a derrota do PT, atribuem o fato a uma espécie de fadiga de material. No movimento pendular da política, e depois de 16 anos, chegou a hora do poder trocar de mãos. Sem contar ser também reação ética, contra uma corrupção que comprometeu todos os personagens importantes do partido. Todos. Alguns, porque enriqueceram. Outros, por serem operadores. Sem contar os que, mesmo não tendo posto grana em seus bolsos, sabiam de tudo. Concordavam com tudo. E eram peças, de alguma forma, nessa corrupção amplíssima.
A dúvida é se foi só isso. Porque talvez seja parte de uma conspiração que teve, em Trump, seu melhor exemplo. Talvez, no Brasil, tenha sido também um basta aos protestos que fecham ruas e estradas, atrapalhando a vida de quem precisa trabalhar. De tantas greves insuportáveis, para todos nós contribuintes, embora cômodas para funcionários públicos que não aparecem nas repartições mas continuam com seus salários intocados. Ou essas ocupações nas escolas, por razões as mais disparatadas, infernizando a vida dos que desejam estudar. E que têm, como efeito prático, apenas deteriorar, ainda mais, a educação brasileira. Talvez tenha sido, também, um silencioso basta a esse conjunto de práticas. É cedo para ter certeza. Faltando lembrar que em um 9/11, de 1889, Ruy Barbosa publicou seu célebre artigo “Plano contra a Pátria”, em que disse: Há quase sempre alguma coisa impalpável e misteriosa no seio dos acontecimentos, que conspira contra as conspirações.

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