EDITORIAL » EUA: depois da eleição, a paz?

Publicação: 09/11/2016 03:00

Todos nós nos surpreendemos com a virulência e a agressividade da presente eleição para a Presidência dos Estados Unidos. De um país com uma democracia tão consolidada, onde não há golpes nem muito menos quarteladas, tendemos a esperar uma campanha civilizada, feita na base do combate de ideias, não de troca de agressões pessoais.
Esta, porém, não é a única característica surpreendente da política norte-americana — existe outra, mais impactante: em nenhum país democrático se mata tanto presidente quanto nos Estados Unidos. Até hoje foram quatro, assassinados durante o exercício da Presidência. Além disso, houve atentados contra outros nove — ataques que, se bem-sucedidos, deixariam a trágica marca de 13 presidentes vítimas de assassinato. Como detalhe histórico, acrescente-se ainda o caso de Robert Kennedy,  morto a tiros em 6 de junho de 1968, quando era pré-candidato à Presidência.
Os presidentes assassinados foram Abraham Lincoln, em 1865; James Garfield, em 1881; William McKinley, em 1901, e o mais carismático deles, John Kennedy, em 22 de novembro de 1963. O fato de no século 20 ter ocorrido apenas uma morte não significa que o gesto violento de tentar matar o presidente tenha sido uma prática exclusiva do século 19. Entre os nove que sofreram atentados, oito exerceram seus mandatos no século 20, entre eles Richard Nixon (que escapou de um em 1974), Gerald Ford (1975), Jimmy Carter (1979) e Ronald Reagan (1981).
Não nos move aqui o desejo de tentar explicar por que um ato de tamanha violência é tão frequente nos Estados Unidos. Tampouco pretendemos tentar estabelecer um nexo causal entre “campanha radicalizada” e “atentados”. Em ambos os casos só estudiosos dedicados ao assunto têm credibilidade para levantar teses e argumentos capazes de tentar explicar o fenômeno.
Os Estados Unidos têm uma larga e inspiradora tradição em escolher democraticamente seus representantes. Como vizinhos do Sul, com históricos laços de ligação, nossa expectativa é que os efeitos da agressividade da campanha sejam eliminados pelos efeitos dos votos dos eleitores. A realidade nem sempre coincide com as expectativas por um mundo melhor, mas — e aí o raciocínio vale para todos, não só para os Estados Unidos — quando se perde a esperança na política, abre-se a porta para o imprevisível, em cuja sombra costuma esconder-se a violência.

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