Educação, Pernambuco e a valorização dos professores

Tiago Cavalcanti
Professor da Universidade de Cambridge e FGV-SP

Publicação: 08/11/2016 03:00

Em uma pesquisa fascinante, os acadêmicos americanos Chetty, Friedman e Rockoff cruzaram dados da geração de valor (Valor Adicionado) dos professores da rede pública no desempenho escolar de mais de um milhão de crianças nos Estados Unidos com dados da declaração do Imposto de Renda dessas mesmas crianças quando atingiram os 28 anos. A conclusão impressiona: considerando uma série de características individuais e geográficas, os autores mostram que alunos expostos a bons professores na infância e adolescência não só aumentam as chances de frequentarem universidades e com isso aumentar seus salários, mas também diminui a chance de uma gravidez na adolescência e melhora a vizinhança onde essas crianças residem. Ou seja, o efeito de bons professores vai além de elevar as notas e desempenho escolar dos seus alunos, mas também tem impacto significativo sobre o nível de bem-estar social. Seria ótimo replicarmos tal pesquisa para o Brasil, ocorre que não temos acesso aos mesmos dados dos pesquisadores americanos. Minha conjectura, contudo, é que os efeitos seriam qualitativamentee similares no Brasil.  

Recentemente pesquisas acadêmicas internacionais vêm mostrando o papel significativo da educação no desenvolvimento econômico. Não foi sempre assim. Durante várias décadas alguns economistas enfatizaram principalmente o papel da estrutura produtiva, especialmente a indústria, para o desenvolvimento, sendo que o capital humano tinha papel secundário. No entanto, a estrutura produtiva e o uso eficiente dos fatores de produção dependem também da qualidade da mão-de-obra, que por sua vez depende das políticas educacionais. Não que uma sociedade não necessite de indústrias, mas o foco do desenvolvimento deve ser especialmente as pessoas, até para se ter uma indústria mais eficiente.

A pesquisa dos acadêmicos americanos mostra que dentro desta política educacional está o papel de incentivar financeiramente bons professores e atrair pessoas talentosas para esta profissão fundamental para toda a sociedade. Isso requer uma valorização da carreira como um todo: desde condições de trabalho adequadas até salários competitivos com premiações financeiras. É importante enfatizar, principalmente dentro de um período de crise fiscal, que não necessariamente devemos gastar mais com educação. Sei que é difícil comparar países, devido as especificidades de cada lugar, porém o Brasil gasta mais com educação pública como proporção da renda do que a Coréia do Sul. Enquanto a Coréia do Sul está no topo no ranking internacional de desempenho de seus alunos em matemática e compreensão de texto, o Brasil está entre os últimos. Claro que necessitamos de mais dados para fazer uma análise comparativa mais rigorosa, mas a evidência sugere que existe também um problema de gestão. Na própria página eletrônica do Ministério do Planejamento do Brasil é possível encontrar a notícia que o Brasil gasta mais do que a Coréia do Sul em ensino universitário, no entanto a proporção de jovens brasileiros matriculados na universidade é de cerca de 20% e na Coréia do Sul é de 80%. Ou seja, não gastamos pouco, mas somos bastante ineficientes na forma como usamos nossos recursos.

Vale ressaltar, contudo, o louvável esforço do governo do estado de Pernambuco nas suas últimas gestões. Em 2005 as escolas públicas de Pernambuco tinham um dos piores desempenhos no ensino médio do Brasil, segundo o Ideb do Ministério da Educação. Após uma década as escolas públicas de Pernambuco agora lideram o ranking nacional de desempenho no ensino médio. Pernambuco também é o estado que tem a menor diferença entre o desempenho dos alunos das escolas públicas e privadas. A aposta em uma política de longo prazo com escolas integrais e técnicas, bônus por desempenho e estratégia de gestão baseada em metas surtiu efeitos claros e agora atrai a atenção de outros estados em busca de uma melhoria na sua educação. É evidente que há vários graves problemas a serem resolvidos inclusive com o objetivo de atrair e manter os bons profissionais na rede pública de ensino. Mesmo reconhecendo os imensos desafios ainda existentes, todos os estudantes agradecem esse empenho do governo de Pernambuco, bem como toda a sociedade deve celebrar, já que investimentos genuínos em educação influenciam as condições de vida dos estudantes e geram uma série de efeitos sobre o bem-estar daqueles que os rodeiam.

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