Miguel de Cervantes, uma grande vida

Francisco Dacal
Administrador de empresas, membro da Asociación de Cervantistas

Publicação: 07/11/2016 03:00

O escritor Miguel de Cervantes Saavedra ficou conhecido por ter tido uma vida permeada de adversidades, desde o berço, e que sempre viveu com dificuldades de manutenção. Apesar disso, ele teve uma grande vida, na razão em que fatos ocorridos engrandecem o indivíduo presente, independente de sua condição. Sob este ponto de vista, alguns aspectos podem ser considerados.

A longevidade – Cervantes viveu sessenta e oito anos, seis meses e vinte e três dias, quando a expectativa de vida girava em torno de trinta e quatro anos. Portanto, teve tempo e oportunidade de conhecer e participar de importantes acontecimentos, entre o renascimento e o barroco. Ademais, conseguiu se educar, numa fase em que pouquíssimas pessoas sabiam ler e escrever.

O herói de guerra – Estando em Roma, trabalhando como camareiro do cardeal Acquaviva, Cervantes alista-se como soldado da Santa Liga, que estava organizando tropas para combater a expansão dos Turcos Otomanos no Mediterrâneo. Participa ativamente da Batalha de Lepanto, na Grécia, em outubro de 1571, onde os Otomanos foram vencidos, sucesso vital à geopolítica da Europa ocidental. Na batalha travada, levou três tiros de arcabuz, um deles inutilizou sua mão esquerda.

O cativo – De volta à Espanha, a galera El Sol em que viajava é assaltada por corsários berberes e Cervantes é feito refém, sendo levado para Argel. Fica como escravo “cativo de resgate” durante cinco anos, com quatro tentativas de fuga, todas frustradas, tendo escapado da morte por milagre. Algum tipo de respeito houve. Em 1580 é resgatado, e, finalmente, completa a viagem de volta.

O trabalhador – À época, aos homens restavam três caminhos, “ao rei, à igreja, ao mar”. Cervantes sempre procurou ser útil, correndo atrás de alternativas de sobrevivência. Trabalhou alguns anos como comissário de abastecimento da Armada Invencível. Tentou ocupar vagas existentes nas colônias da América, mas não foi atendido. Nesse caminhar, demonstrava pendor à arte literária. Dedica-se a ela, por completo, depois da publicação do Quixote.

O escritor – De início, Cervantes fez poesias e peças de teatro. Publica o primeiro livro, A Galatea, em 1585. Entre 1605 e 1616 publica Dom Quixote de la Mancha (I-II parte), Novelas Exemplares, Viagem ao Parnaso, Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda (póstuma, em 1617), e Oito Comédias e Oito Entremezes.

O Século de Ouro – Movimento ímpar da cultura mundial, acontecido na Espanha, em vários campos da arte, entre os séculos XVI e XVII, com o passar do tempo Cervantes vem a tornar-se, na literatura, o principal protagonista, entre figuras como Tirso de Molina, Calderón de la Barca, Francisco de Quevedo, Garcilaso de la Vega, Luis de Góngora, Santa Teresa de Jesus, San Juan de la Cruz, Lope de Vega, etc.

O humanista – Cervantes foi um notável observador e leitor. Conhecia os clássicos, e, mais ainda, as nuanças da vida, que sabia interpretar, representar e enfrentar como poucos.

O livro Dom Quixote de la Mancha – Cervantes presenteou o mundo com uma obra imortal. O primeiro romance moderno. Eterna fonte de ensinamentos e inspiração para leitores e escritores de todas as partes. Um legado humano e de sonhos.

Pode ajudar na compreensão desse panorama a opinião do cervantista Luis Astrana Marín: “Cervantes revela-se um homem, ou melhor, um super-homem, que vive e morre abraçado com a humanidade”.

Caro leitor, Miguel de Cervantes fez aniversário no dia 29 de setembro passado, 469 anos. Celebremos!

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.