Hillary deve ganhar, felizmente!

Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de Direito da UFPE

Publicação: 07/11/2016 03:00

Amanhã os americanos tomarão uma decisão que afeta o planeta. Pelas consequências práticas das ações do governo mais influente do mundo. Mas também pela sinalização dos valores que devem advir dessa liderança. Em ambas, Obama fez bem. O candidato Trump, ao contrário, estimula valores que realçam o lado negativo do gênero humano. Suas falas flertam com discriminação, egoísmo, ódio a imigrantes, falta de compaixão social, violência contra manifestações de rua, admiração por gente como Putin, e descompromisso com as regras do jogo democrático. Um governo Trump diminuiria os impostos dos ricos e aumentaria a proteção comercial americana, prejudicando os países pobres e exportadores. Uma Suprema Corte por ele nomeada reverteria avanços em direitos civis, como os das minorias, da liberdade de expressão, de orientação sexual, e dos costumes. Seriam pequenos os riscos de crescimento da intolerância e do ódio? Não surpreende que respeitáveis veículos, como o New York Times, o Washington Post, a The Economist e a CNN apoiem expressamente sua adversária.

Hillary não é uma candidata carismática, nem popular. Suas dificuldades têm a ver com os defeitos da política convencional do Partido Democrata. Muitos acham que Washington está capturada por Wall Street. Como exemplificam algumas das suas relações e de seu marido com grandes magnatas das altas finanças. Ou os problemas da Fundação Clinton. Isso explica a boa performance de seu adversário nas primárias. Bernie Sanders atraiu o apoio dos críticos das relações da elite política com a elite financeira do país.

A despeito do recente crescimento de Trump, as pesquisas apontam maiores chances para Hillary. As presidenciais nos EUA, em verdade, consistem em 50 eleições. Salvo os estados de Maine e Nebraska, em todos os demais o partido que nele sai vencedor tem o direito à totalidade dos delegados do colégio eleitoral. Mesmo com menos votos absolutos, Bush elegeu-se em 2000 por ter garantido 271 votos no colégio eleitoral.

O New York Times aponta uma chance de 84% de probabilidade de vitória de Hillary. A pesquisa das pesquisas, da CNN, aponta um total de 46% dos votos para a democrata e 43% para o republicano. De nove grandes institutos levantados pelo NYT, todos indicam uma probabilidade maior de vitória de Hillary. Esses institutos apontam que em 23 estados com forte chance de voto democrata, já estariam assegurados a Hillary 268 votos no colégio. Em 22 estados de forte inclinação republicana, 157 votos iriam para Trump. Ficando a decisão para os 11 estados competitivos. Neles, estados com muitos votos no colégio, Flórida (29 votos, com 30% de chances para Trump) e Carolina do Norte (15 votos, com 34% de chances para Trump) estariam mais inclinados a votar em Hillary. Ohio (18 votos, com 54% de chances pró-Trump), Georgia (16, com 80% de chances pró-Trump) e Arizona (11 votos, com 81% de chances pró-Trump), votariam com Trump. Por aí se vê que Hillary estaria muito mais perto de completar os 270 votos que lhe dariam a vitória.

Preocupa o ‘depois da eleição’. A campanha desenrolou-se mais em termos de personalidades do que de programas. Foram ultrapassados muitos limites das regras do jogo, como a ameaça do republicano de prender a adversária. Como adverte Frank Bruni, colunista do NYT, o país permanecerá profundamente dividido, em qualquer dos cenários. Não terá prevalecido uma visão clara de futuro. O próprio Trump e os republicanos falam de ‘crise constitucional’ e levantam o espectro do ‘impeachment’ caso ganhe Hillary. Por tudo isso, o México já tem um plano de contingência para o caso de vitória republicana. No Brasil, analistas financeiros preveem que, de imediato, a vitória de Trump aumentaria o dólar para R$ 2,40 ou 2,50. Felizmente, a análise das pesquisas indica que Hillary Clinton deve ser a primeira mulher a presidir os EUA.

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