EDITORIAL » As feridas abertas de Mariana

Publicação: 07/11/2016 03:00

Passado um ano da maior tragédia socioambiental da história do país, as feridas continuam abertas no município de Mariana, na Região Central de Minas Gerias, com o rompimento da Barragem do Fundão, atingindo diretamente o distrito de Bento Rodrigues. Além da dor pela morte de 19 parentes e amigos, a população local ainda enfrenta grande sofrimento com a perda de casas, empregos e da própria história — tudo carregado por toneladas de lama. O rastro de destruição continua por toda parte e as cicatrizes ainda são visíveis entre os atingidos pelo desastre.

A cidade não suporta mais viver crucial dilema: ao mesmo tempo em que as autoridades cobram da mineradora Samarco — empresa responsável pelo rompimento da barragem — a adoção de medidas rigorosas de segurança para evitar novos acidentes, a população pede o retorno imediato das atividades da empresa, carro-chefe da economia local. Mas a liberação de nova licença para ela voltar a funcionar depende da adoção de providências, o que até agora não ocorreu, de acordo com os órgãos fiscalizadores.

A Samarco também não pode mais protelar a realocação dos moradores que perderam suas casas, o que foi prometido, mas ainda não se concretizou. Centenas deles continuam vivendo em hotéis, pensões, casas de parentes e amigos ou alugadas pela mineradora, o que causa enormes transtornos. E para agravar, muitos continuam desempregados com a suspensão do funcionamento da mineradora.

Líderes comunitários, empresariais e políticos defendem a volta imediata das atividades da empresa, já que a arrecadação de impostos em Mariana depende em 80% do setor minerário. A economia local se encontra paralisada, pois a Samarco gerava 3 mil empregos diretos e 3,5 mil indiretos, com a extração do minério de ferro. Pelas estimativas do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Extração do Ferro e de Metais Básicos de Mariana, a Samarco era fonte de sustento para 10 mil pessoas na cidade histórica, de 55 mil habitantes.

Todo o apoio deve ser dado às autoridades ambientalistas quando cobram da mineradora celeridade na implementação das medidas para a recuperação dos distritos arrasados em Mariana — além de Bento Rodrigues, a localidade de Paracatu de Baixo também foi devastada — e dos municípios atingidos pelo mar de lama, desde Barra Longa, a jusante da barragem rompida, até a foz do Rio Doce, no Espírito Santo. Hoje, os ribeirinhos que viviam da pesca nos dois estados enfrentam grande dificuldade para sobreviver, a agricultura foi seriamente atingida e até água potável se tornou escassa.

Sueli Araújo, presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) — a autarquia vem monitorando os trabalhos de recuperação ambiental —, garante que as medidas a serem tomadas serão suficientes, mas que o atraso nas obras e o período chuvoso são um desafio. “Com a chuva você não sabe o que vai acontecer entre Fundão (a barragem que ruiu) e Candonga (usina hidrelétrica situada abaixo)”, alerta.

O que o país espera é que a empresa responsável pelo desastre ecológico assuma, plenamente, suas responsabilidades perante a população atingida e o meio ambiente devastado, e que as autoridades equacionem, o mais rápido possível, a questão da licença ambiental para a Samarco voltar a produzir, gerando empregos e renda.

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