O destino das cinzas

Fernando Araújo
Advogado e professor de direito

Publicação: 04/11/2016 03:00

O papa Francisco, na sua caminhada em prol das transformações e atualizações dos ritos e práticas da Igreja Católica, acaba de tomar mais uma decisão importante que há muito esperavam os fiéis: confirmar a possibilidade de cremação dos mortos e apontar qual o destino de suas cinzas, o que fez por intermédio da Congregação da Doutrina da Fé. A cremação era uma dúvida entre os católicos, conquanto permitida pela Santa Sé desde 1963. Agora, todavia, com a divulgação das 25 regras pelo Vaticano, ficou claro que não só a prática está permitida, como não existem razões doutrinárias para impedi-la, muito embora o documento deixe claro que a preferência da Igreja ainda é pelo sepultamento tradicional. Ao meu pensar, a permissão ora ratificada é muito bem-vinda. Afinal, que significado tem preferir dar a carne aos vermes ao invés de antecipar essa lenta destruição pelo processo de cremação? Sua Santidade, contudo, aproveitou o ensejo para proibir comportamento que vinha sendo adotado pelas famílias dos mortos, por vezes até atendendo pedido destes, o de jogar as cinzas no mar, nos rios, em jardins, campos e florestas. Ou, ainda, outro, o de dividir o resíduo proveniente da combustão entre os parentes como se fosse relíquia. Segundo o documento, isso é determinado para evitar que as pessoas adotem, de forma consciente ou inconsciente, posições panteísta, naturalista ou niilista. Com efeito, orienta as regras que “as cinzas dos defuntos devem ser mantidas em lugar sacro, entre os quais os cemitérios”. Desse modo, também restou claro que não é permitido guardar cinzas em residências. Mesmo entre cristãos, o tema morte sempre foi e continua sendo evitado. Mas a ciência explica que esse medo é natural e até necessário, pois vem do nosso instinto de conservação, fundamental à preservação da vida. Ele nos impede de grandes desafios e evita situações arriscadas. Fugir falar da morte seria nos poupar de sofrimento. Mas, na real verdade, não há como evitar, pois ela é parte da vida. Destarte, afora a religião que orienta, hoje também está muito difundida a tanatologia. Trata-se de ciência que ajuda o ser humano a vencer o medo da morte. Para ela, falar da morte é fundamental para a construção do significado da vida. Epicuro de Samos (341 – 270 a.C) ensinava no seu tempo: “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais”. A Igreja vê na morte apenas o fim de uma etapa e começo de uma outra ainda mais importante: “Lembra-te, homem, que és pó e ao pó tornarás”. Portanto, “Cinzas e nada mais”.

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