Valeu boi!

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 04/11/2016 03:00

O Supremo, por 6 votos a 5, declarou inconstitucional a Lei 15.299/13 (do Ceará). Por considerar haver intolerável maldade na arte de derrubar magros bois nordestinos entre duas linhas de cal pintadas nas areias. Sem levar em conta os códigos de honra da liça. Como o de não poder se tocar nos bois, não ferir o cavalo e ter cuidados redobrados com o rabo do animal. Tudo segundo tradição secular. Pena. Melhor faria, nosso maior Tribunal, se interferisse menos em questões como esta.
Sobre as vaquejadas em São Paulo e arredores, nada. Sobre os enormes touros (com quase uma tonelada) de raça que rodopiam em outras areias, para deleite de novos caipiras, nada. O mais famoso deles, “Bandido”, acaba de se aposentar. Ninguém mais vai ver “Bandido” se exibindo por aí. Culpa de Sérgio Moro, talvez. Sobre garbosos cavalos que sofrem nas esporas dos profissionais da monta (alguns americanos), com ferros na boca e serras no focinho – por onde, com frequência, sangram –, nada. Mas não se aceita que nossos magros bois sejam derrubados nas areias nordestinas.
A vaquejada faz parte do imaginário de um Brasil popular e profundo, senhores. Tanto que o Congresso agora, terça, reconheceu ser Patrimônio Imaterial do país. Está entranhada em nossa cultura. Está nos bois de barro de Vitalino e filhos. Nas xilogravuras de J. Borges. Nos cordéis de José Faustino Vilanova. Na língua certa de nossos cantadores – Onde tem gado e vaqueiro/ E corrida de mourão/ Tem a lei da Vaquejada/ O que vale é boi no chão. Na voz de Gonzaga: Adeus quem fez vaquejada/ Adeus quem vestiu gibão. Nas doces palavras de Ascenso Ferreira (“ A Pega do Boi”): O rabo da bicha reteve na mão!/ Mas, baixa a poeira,/ A rês mandingueira/ Por terra ficou.../ E um grito de glória/ No espaço vibrou:/ – Hô – hô – hô – hô – hô/, Váá!/ Meu boi Surubim!
Haverá mesmo crueldade tão grande nessas derrubadas?, eis a questão. Seja-nos permitido alargar o olhar, ainda que longe dos limites dessa questão. Como comparar o boi das vaquejadas com animais sacrificados em pesquisas. Ou a outros bois, que vão todos os dias para nossas mesas. Em suculentos bifes. Alguns precoces, jovens novilhos recém-nascidos que nada verão desse vasto mundo. Ou às touradas espanholas – em que os touros são furados, por lanzas e banderillas de picadores, nas costas (logo após a cabeça), fazendo um buraco enorme onde o sangue jorra aos borbotões. E que, diferente dos nossos pobres bois, não sobrevivem. Penso em situações mais prosaicas.
Condenar leões a jaulas pequenas e infectas, dos zoológicos ou circos, na visão dos Ministros é menos cruel que derrubar bois magros nas areias? Tatuados lutadores de boxe (e MMA) que com certeza sofrerão lesões cerebrais graves (concussão, como dizem os especialistas), e morrerão mais cedo só para garantir nosso Panem et Circenses, pode? E passarinhos que viverão todas suas vidas presos em gaiolas, também pode? Pobres coitados, proibidos que estarão de cumprir os destinos que deveriam ter. De usar suas asas, belas e inúteis, para voar por céus imprecisos e distantes.
Sem contar outro bicho, amigo leitor, largado e esquecido nesse mundão de meu Deus. Em seu silêncio, como a implorar por nossa comiseração. Com esse, poucos se interessam. Bicho magro, como os bois magros. Sofrendo esquecido. Tentando (sobre)viver. Manuel Bandeira fala dele (em “O Bicho”): Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos/ Quando achava alguma coisa,/ Não examinava nem cheirava:/ Engolia com voracidade./ O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato./ O bicho, meu Deus, era um homem.

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