O direito de ser mulher

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 03/11/2016 03:00

Eu tenho amiga que é mãe de três filhos e não trabalha. Eu tenho amiga que trabalha e decidiu não ter filhos. Eu tenho amiga que separou e não quer casar de novo. Eu tenho amiga que casou no civil, separou e sonha casar no religioso. Eu tenho amiga que trabalha, casou tarde e sonha ser mãe depois dos quarenta.
E eu admiro todas elas.
Eu admiro todas elas porque sei como é difícil para a mulher exercer o seu direito de escolha. Escolher o seu próprio caminho para ser feliz, sabendo que vai ser necessariamente julgada por isso.
Se cuida dos filhos e não trabalha, é julgada. Se trabalha e não tem filhos, é julgada. Se casa e não quer filhos, é julgada. Se não casa e quer ter filhos, é julgada.
Eu não participo desse julgamento.
Defendo o direito de homens e mulheres escolherem o que lhes fazem felizes. E o limite dessas escolhas deve ser o direito dos outros de também serem felizes. Se a mulher casa e não quer ter filhos, o limite da escolha dela é o companheiro também concordar com isso, o que pode transformá-la em uma mulher separada que não quer ter filhos. Mas a sociedade não tem o direito de julgá-la por não querer ser mãe.
E esse raciocínio se aplica a muitos exemplos. Eu sempre trabalhei, me importo com a minha carreira, fui casada, tenho filho, separei-me, e por hora não penso em casar-me de novo. E me sinto muito feliz nesse modelo que criei para mim, e que não precisa ser copiado para que outras mulheres se sintam tão realizadas, felizes e conscientes de seu valor, como eu me sinto.
Eu não escolheria ser uma princesa. Não fui criada para isso e se tivesse uma filha, não a criaria com esses valores. Mas defendo o direito de mulheres que querem encontrar um príncipe, casar e ser feliz para sempre, de viverem esse modelo sem o peso de meu julgamento, e também sem a minha admiração.
Nós não precisamos gostar ou concordar com as escolhas dos outros, apenas aceitá-las. E aceitar as escolhas pessoais das mulheres implica em assegurar que essas escolhas não sejam utilizadas para condená-las por falsas convicções morais. Eu sou festeira, gosto de dançar, quando bebo não dirijo, tenho amigos espalhados no mundo e gosto de viajar para encontrá-los, o que pode não se encaixar no modelo padrão de mulheres recifenses de 43 anos, mas se encaixa muito bem em mim.
Sou tudo isso e uma excelente mãe. Tenho uma relação próxima com o meu filho único, com a minha família e com os amigos que considero leais. E sou uma profissional que conhece o seu valor e que quer e merece ser respeitada por isso.

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