Mudança climática e desenvolvimento tecnológico

Rafael Dubeux
Bacharel em Direito pela UFPE e doutor em Relações Internacionais pela UnB

Publicação: 03/11/2016 03:00

Amanhã, entrará em vigor o Acordo de Paris, de 2015, que prevê limites globais para a elevação da temperatura do planeta decorrente de emissões de gases de efeito estufa. Apesar de lacunas, o acordo é um marco na profunda mudança pela qual economias de todo o mundo estão passando para se adaptar ao cenário de mudança climática. As repercussões são marcantes em todas as áreas, especialmente em energia. É preciso discutir como o Brasil deve se inserir nesse novo ambiente.
O setor de energia é o principal responsável pelas emissões de gases estufa de origem antrópica, especialmente em razão de fontes fósseis (carvão, petróleo e gás natural). São intensas as transformações pelas quais esse segmento econômico vem passando. Em 2015, no conjunto dos países, foi adicionada mais capacidade de geração elétrica de fontes renováveis do que de fontes fósseis, sendo cerca de 73% das renováveis compostas por eólica e solar (dados da Agência Internacional de Energia). Na área de transporte, a progressiva difusão de biocombustíveis e a rápida expansão de carros elétricos – e agora autodirigidos, sem motorista – também estão remodelando o sistema.
O desenvolvimento tecnológico tem sido a força propulsora desses movimentos. A China, outrora vista como grande poluidor mundial pelo uso amplo de carvão, é hoje reconhecida líder em energia eólica e solar. Esse país não apenas se destaca em geração, mas também em fabricação de equipamentos utilizados para essas fontes e um grande desenvolvedor de inovações no setor, revelando um aprendizado tecnológico extraordinário em curto espaço de tempo – ainda que continue fazendo uso em paralelo de fontes fósseis.
O Brasil, apesar de não exibir uma matriz energética tão poluente quando comparado a outras nações, apresenta baixa capacidade de desenvolvimento tecnológico nas áreas de maior potencialidade. Mesmo nos segmentos em que temos certa vantagem, o país parece estar desacelerando o empenho em disputar espaço na revolução tecnológica em curso no campo de energia.
No caso da hidroeletricidade, as atividades inovadoras na área patinam, como revela o número insignificante de novas patentes. No campo dos biocombustíveis, houve enorme desaceleração recente por um conjunto de fatores (queda do orçamento público para pesquisa, política de preços da gasolina, valor de commodities e regulações setoriais), embora ainda haja bastante a avançar em termos de melhoria do maquinário para colheita e utilização de outras partes da planta (bagaço e palha). Na eólica, nossa capacidade industrial está concentrada na montagem das torres e das pás, mas não da parte tecnologicamente mais densa, chamada de nacele (parte que inclui motor e sistemas de controle). Na solar fotovoltaica, as atividades brasileiras são ainda bastante incipientes em todas as fases tecnologicamente sensíveis, como purificação de silício e fabricação de “células solares”.
Precisamos adotar medidas que promovam o desenvolvimento das indústrias em que temos chance de acompanhar a fronteira tecnológica em energia – um empenho nesse setor que reproduza o que a Embrapa fez para a agricultura, ou o ITA propiciou para a engenharia aeronáutica. Fazendo isso, ao mesmo tempo em que atenderíamos ao interesse nacional de avanço econômico, estaríamos também alinhados ao interesse da humanidade em evitar mudanças climáticas desastrosas.

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