Que é isso, Professor Lupércio?!

Clóvis Cavalcanti
Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Publicação: 03/11/2016 03:00

Não votei no segundo turno da eleição municipal deste ano em Olinda. Viagem providencial a Bogotá me poupou do sacrifício. É que a escolha estava muito difícil para qualquer um que habita, como eu, o Sítio Histórico. Depois de 8 anos de um prefeito forasteiro – Renildo Calheiros –, sem nenhuma identificação com a cidade, a candidatura de Antônio Campos soava com a mesma melodia. Não cabia alusão a Miguel Arraes e Eduardo Campos como referência para o candidato do PSB. Ele, simplesmente, não tinha a mínima dose do carisma dos dois, não se integrava com a população, não angariava simpatia e empolgação. O mistério é que haja querido ser candidato e tivesse seu nome lançado na disputa do executivo municipal. Poeta, escritor – herdeiro de um artista da palavra como seu pai, Maximiano Campos, de quem fui amigo –, membro da Academia Pernambucana de Letras, intelectual, advogado competente, nunca evidenciou, contudo, predicados para ser prefeito de Olinda. Como Renildo, não morava na cidade. Nunca o vi caminhando pelas ruas da Cidade Alta em dias que não fossem os da Fliporto – este último, aliás, um evento que, logo que migrou de Porto de Galinhas para Olinda, causou destruição ambiental na Praça do Carmo. Participar do carnaval olindense é algo que nunca se soube dele (e, para ser prefeito, uma condição é que o candidato saia no Ceroula, no sábado de Zé Pereira). Enfim, depois da experiência com Calheiros, estava todo mundo detestando a idéia de mais um prefeito que não exibisse pulsação de sangue olindense.
Nesse quesito, não se pode criticar de saída a qualificação do prefeito eleito, conhecido apenas como Professor Lupércio (até agora, ignoro seu nome completo), um morador e político de raízes em Olinda. Diferente de Antônio Campos, contudo, que conheço de muito tempo, do candidato do Solidariedade, vencedor da disputa, nunca tinha ouvido falar – nem ninguém do meu vasto círculo de relações na cidade o tinha. Fiquei sabendo a respeito dele a apenas 3 semanas da votação, graças a informações que o prof. Jailson Silva, amável gerente do Hotel 7 Colinas, meu vizinho de rua, me passou numa conversa em que o assunto eleição surgiu por iniciativa minha. Foi aí que descobri o significado do título de professor, de Lupércio: ensina matemática (e é também advogado). Depois, minha instrutora de Pilates, Fabianne Coelho, contou que, uma vez, em solenidade de aula da saudade na Focca, Lupércio tinha sido ovacionado quando o chamaram para fazer seu discurso. Tanto que ele, modestamente, pediu que os aplausos ficassem para os estudantes, que os mereciam, não para ele, professor. Fabianne não tinha candidato quando me disse isso. Passei então a nutrir simpatia pelo nome dele, inclusive por um trabalho que ele – que foi o vereador mais votado de Olinda em 2012 e é deputado estadual – fazia na periferia e em Igarassu. Trabalho assistencial sem caráter eleitoreiro, segundo me contaram.
Acontece que Lupércio tem mostrado preconceito em relação a uma das coisas mais agradáveis e tradicionais de Olinda – seu carnaval –, preconceito que parece ir mais longe do que o tolerável. No dia 31 de outubro, de fato, entrevistado pela Rede Globo acerca dessa festa que é marca da cidade, ele começou declarando: “Sou cristão e minha fé é inegociável”. Depois fez ressalvas. Quer dizer que o carnaval significa a antítese do cristianismo? Que é isso, Prof. Lupércio?! E, por favor, pense direitinho se deve se aliar ao PCdoB, partido que não deixa saudade em Olinda.

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