O prefeito intelectual

Valéria Barbalho
Escritora

Publicação: 02/11/2016 03:00

Assistindo aos debates políticos pela TV, viajei no tempo, imaginando como se comportaria nesses eventos um dos prefeitos da Capital do Agreste dos velhos tempos: Henrique Pinto.
Em Caruaru de Henrique Pinto - Visão Histórica e Social - 1917 a 1920 (CEPE - Recife, 1981), Nelson Barbalho, escreveu: “Capitão Henrique Briand da Silva Pinto, fino homem de sociedade, cordato e democrata, inteligente e culto, adotava o excelente hábito de frequentar o Conselho Municipal e confabular com todos os seus membros, trocando ideias, sugerindo projetos, visando sempre o bem-estar dos munícipes e o progresso geral da Municipalidade. Desse bom convívio entre o Executivo e o Legislativo resultavam frutos sadios em forma de Leis Municipais, as primeiras, das quais, notáveis sobre todos os aspectos (...)”.
Além de excelente chefe político, Henrique Pinto era jornalista e assinava, com o pseudônimo de Fulô, uma coluna na primeira página do semanário caruaruense Cinco de Novembro.  
Quando na cidade só se falava de futebol o Cap. Henrique, ou melhor, Fulô, revelou seu espírito crítico em Ecos & Reflexo: “Quem por acaso, por sandice / Disse / Que o foot-ball não nos deleita... / Eita! / Agora mesmo se desdiga / Diga / Que a bola é bola que enrabicha / A bicha / Que importa o sol? Qual invernada, / Nada! / Um jogo fino, um jogo macho / Acho / “Central”! “Sport”! Que serviço / Isso / Sempre que os “teams” com vantagem / Agem / Quem quer saber se no Ceará / “Ará” / Chuvas? Nem seca em Rio Grande / Ande, / Desde que a bola refregou / O “gô”, / E foi depois se insinuar / No ar? ... / Ar! Val a pena ver, Sinval / Sim, Val / As “torcedoras” do “Centrá” / “Trá”...”Trá”... / E o “Sport” sem as “torcidelas” / Delas!”
Entre seus causos conta-se que certa noite o Prefeito estava na varanda da sua casa na rua de Matriz, quando avistou o Major Sinval indo caçar, vestido a caráter. Se fazendo de tolo, logo indagou: “Boa noite, Major! Pra onde vai tão carregado? Vai à guerra?”. Compreendendo a ironia do Prefeito, Sinval respondeu: “Boa noite, Capitão! Que guerra, que nada! Vou ali, fazer uma caçadinha de veado, que é bicho de muita ponta, é servido?”. Rindo, o Prefeito foi cordial: “Obrigado, Major! Bicho de ponta não é comigo. Bom proveito!”. No dia seguinte, o Major, voltando, frustrado, pois só conseguiu caçar um jabuti, deparou-se, novamente, com o Prefeito que deixou para comentar o fato através do jornal: “Você sabendo, Sinval / Como eu gosto de veado / Matando um, deveria / Mandar-me um pedaço assado / Urubu não é juriti / Veado não é jabuti”. Sem gostar do desaforo, o Major mandou a reposta: “Um Pinto comer veado / É coisa que não consinto / Porque no papo não cabe / E mesmo o amigo sabe / Qual é o comer de pinto”.
É por essas e outras histórias que imaginei como um prefeito intelectual, que comandou Caruaru por duas vezes e foi também deputado se comportaria em um debate. Acredito que daria show!

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.