A literatura precisa sempre de um boxeador feroz

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 31/10/2016 03:00

É lugar comum falar em boxeador literário depois da classificação de Cortazar a respeito de conto e de romance. Para o escritor argentino, repete-se à exaustão, o conto é uma luta de boxe que termina no primeiro round por nocaute; basta um murro  e acabou. Mas o romance é uma luta que termina no 12º. Round, por pontos. Aliás, por cansaço dos lutadores.

De minha parte sempre gostei muito de histórias curtas, nem conto nem novela, e nem sequer  romance -  romance se presta muito a reflexões lentas, a discursos conteudísticos, falas transformadas em monólogos ou solilóquios , teorias, verdadeiras teses ou monografia, às vezes com mais de duas ou três páginas, que se transformam em ensaios  ou ideologias. Na tradição romanesca do século dezenove este era um recurso constante e decisivo. Romance e ensaio muitas vezes se confundiam, cujo exemplo máximo é inimitável Dostoiévski, seguido de Tólstoi e do francês Victor Hugo. Ali se desenvolvem verdadeiras teorias do comportamento humano, com ênfase para defeitos e tragédias. De minha parte – o que não é importante – gosto de textos que sejam lidos numa manhã ou numa tarde, até porque a noite é para dormir, por isso nunca sei se é romance ou novela, se enquadram nos dois gêneros e podem ser uma coisa e outra. Tudo a um tempo só.. Meus livros quase não passam de cem páginas – por isso podem e devem ser lidos num golpe só, de uma tirada, com febre e respiração presa, só suspirando no final. Precisam ser lidos numa tacada final.

Agora mesmo estou lendo o livro de estreia do contista paulista Jorge Ialanji Filholini : “Somos mais limpos pela manhã”, com seu ar de boxeador, de murro certeiro e definitivo, capaz de derrubar o leitor no primeiro round. Jorge é aluno da oficina literária de Marcelino Freire, aplicadíssimo, e chega ao primeiro livro com a força de um veterano, pronto para fazer uma carreira brilhante, embora os textos já mostrem um escritor de raça.

O que quero dizer, definitivamente, é que Jorge é um desses boxeadores de que a literatura precisa sempre , distribuindo contos para todos os lados, quem não aguentar que se cuide. Muitas  vezes a literatura precisa de escritores assim, capazes  de acordar o leitor, de despertá-lo para a crueldade do comportamento humano, de chamá-lo para a verdade do mundo – que não é a verdade filosófica ou teológica, mas do dia a dia, do olhar no chão, do cotovelo enfiado na costela próxima para furar a fila.

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