EDITORIAL » O prefeito que não enriqueceu

Publicação: 29/10/2016 03:00

há quase 90 anos, uma experiência de administração pública marcaria o país por linhas nada tortas. Foi quando Gracilianos Ramos, que não queria ser político, acabou se candidatando a prefeito pelo Partido Democrata depois de ser desafiado pelos opositores do Partido Conservador, que espalharam o boato de que ele tinha medo de fracassar na função e preferia ficar tomando conta da loja de tecidos e miudezas do pai. Palmeira dos Índios, em Alagoas, conferiu-lhe 430 votos. À frente da máquina pública no início de 1927, o escritor - colaborador do Diario de Pernambuco - não fracassou. Nos dois anos que passou no cargo combateu privilégios, acabou com a corrupção e o endividamento público, aumentou a arrecadação de impostos, priorizou obras nos bairros pobres e reformou escolas públicas. Tudo o que os eleitores que vão às urnas neste domingo em 57 cidades - quatro delas de Pernambuco - de 20 estados gostariam que os seus futuros governantes - reeleitos ou novatos - fizessem.
Graciliano tornou-se uma referência de retidão, honestidade e espírito empreendedor como prefeito. Não enriqueceu no Executivo. Renunciou antes do fim do mandato por causa de problemas financeiros pessoais - em 1929, a quebra da Bolsa de Valores de Nova York repercutiu também em Palmeira dos Índios. Com a loja em dificuldades, enviou telegrama ao governador alagoano Álvaro Paes comunicando a sua saída da política. “Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estada na prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos”, escreveu na mensagem.
O relatório de prestação de contas do seu curto mandato foi publicado no Diário Oficial de Alagoas e em vários jornais do país. O tom usado chamou a atenção do poeta Augusto Frederico Schmidt, dono da editora Schmidt. Um passo para a publicação do seu primeiro romance, Caetés. Uma outra história.

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