A coluna, evocação e esperança

Nagib Jorge Neto
Jornalista

Publicação: 27/10/2016 03:00

A década de 20, do século passado, foi marcante na história do nosso país. Reflexo da receita liberal de 1898, com a República em crise, registra a reação das forças sociais e o despertar do sentimento de nação, de defesa do interesse nacional e do processo democrático. Nesse clima, a revolta mobiliza civis e militares e avança com a Coluna Prestes, que percorre o país pregando mudanças e semeando esperança. Era um feito histórico, episódio singular na nossa história, que inquietou a infância da época nas cidades, vilas e povoados, pois os revoltosos eram tidos como bandidos, assassinos, gerando dúvidas e intenção de conhecer a verdade.

Nessa busca, o advogado, jornalista e escritor Salvio Dino realizou ampla pesquisa sobre a Coluna, a passagem pelo sul do Maranhão e constatou que tudo era invenção de fazendeiros, latifundiários, e líderes políticos aliados da República Velha. Em verdade, pois, a Coluna, os revoltosos, foram acolhidos e louvados como heróis naquela área do sertão, apesar do discurso falso e inconseqüente da época e de agora: “na sociedade global quem tem vez e voz é o triunfalismo do mercado, onde os ricos se safam e os pobres continuam pagando a conta”.

Daí as dúvidas do menino resultam numa obra de resgate da lenda do Cavaleiro da Esperança, uma singela e lúcida reflexão sobre A Grande Marcha, que completa 90 anos neste 2016 e visou construir um país soberano e mais justo, deixando como legado o “discurso da ideologia republicana, da mudança, da igualdade, da justiça social, da reforma moral e política em suas bases e suas práticas”. Mais exatamente: é sempre possível lutar, sonhar, fazer a  “louvação do que deve ser louvado” deixando o ruim de lado.

Evidente que agora há novos tropeços, medo, apelo ao mercado e à ruptura do processo democrático, até com amparo do cangaço – agora modernoso – recurso que o sistema tentou usar contra os “revoltosos”, mas Virgulino Ferreira, Lampião, ironizou a sondagem” no Juazeiro do Padim Ciço: “menino isso aqui é meio de vida” ou seja, nada de combater ao lado dos “macacos” da polícia que perseguiam seu bando e ameaçavam sua fama de “Capitão e Governador do Sertão”.

De resto, Salve Salvio por lançar mais luz sobre a Esperança, atacar a “Delenda Coluna” e destacar na obra – A Coluna Revolucionária/ Prestes a Exilar-se” – a afirmação dos ideais da geração dos anos 1950/60 que lutava por liberdade, justiça, plenitude do Estado de Direito e do processo democrático. E por fazer o resgate com emoção, afeto, visão humanista, numa escrita rica na abordagem, que evoca a lição do passado e critica as teses e distorções do presente.

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