A prisão de Eduardo Cunha: começo de uma nova história?

Francisco de Queiroz
B. Cavalcanti
Professor titular e diretor da Faculdade de Direito da UFPE

Publicação: 25/10/2016 03:00

“A revolução é como Saturno, devora seus próprios filhos” (frase sempre repetida de Georg Büchner, em seu livro A morte de Danton.  A frase pode ser transposta para o momento atual brasileiro. Muitas estruturas estão a ser rompidas. Houve, reconhece-se, aceleração da corrupção endêmica e um não isento movimento de repressão. Caíram empresários, caíram alguns políticos, inclusive aqueles que derrubaram, como Cunha. Outros tantos ainda se sustentam sobretudo face à velocidade processual de um cágado  (Phrynops hilarii), que caracteriza a atuação do STF no processamento de seus feitos. Houve injustiças graves( como o Impeachment de Dilma), houve também justiça. Mas, neste contexto a prisão de Eduardo Cunha tem um grande relevo por trazer várias lições como a necessidade da consciência da  temporariedade do poder. De poderoso e temido Capo político e aparentemente também mafioso para melancólico preso em presídio na fria Curitiba. Esse sentimento imediato, reconheço que perigoso, de satisfação, parece um pouco como aplausos a um linchamento, de um malfeitor. Mas somos humanos e a fria masmorra deve ser o destino de todos que infringiram a lei e sobretudo, que prejudicam as camadas mais pobres. Espera-se, com ansiedade, que Cunha, juntamente com Marcelo Odebrecht ( do grupo de mesmo nome cuja tenebrosa evolução está tão bem descrita em artigo de Malu Gaspar na Revista Piauí, deste mês)e outros tantos, revelem ao menos parcialmente, outros tantos partícipes desses assaltos aos cofres da República. Aí não importa a facção política, o grupo, a ideologia, porque, em verdade, essas pessoas não servem a grupo algum, só a seus próprios interesses escusos. Estão presentes nesses contextos,  canhotos e destros políticos. Tenho dúvidas da capacidade das Instituições de resistirem a tantas pressões. Tenho receio que instituições apuradoras se desvirtuem, que julgadores esqueçam seus papéis republicanos, que um legislativo contaminado consiga aprovar projetos de “responsabilização” de autoridades controladoras. São muitos os receios. Mas tenho a esperança que aos poucos, segmentos aparentemente mais esclarecidos da sociedade deixem de ser conduzidos por formadores de opinião compromissados com os grandes grupos econômicos e acordem vislumbrando, por exemplo: 1. A injusta repartição do ÔNUS DA CRISE, que vem poupando o sistema financeiro, em detrimento de assalariados, aposentados e do setor efetivamente produtivo; 2. Que não se canalize todas as adjetivações pejorativas para uma única legenda, em governo inviabilizado por espúria coalização, semelhante a piranhas em fúria, incapazes de abrir mão de nacos da presa em proveito de um interesse nacional. 3.Que se consiga modificar o sistema político, substituindo uma democracia formal, sem adequada proporcionalidade, por algo que, efetivamente, possibilite uma melhor repartição de renda, redução de pobreza e mais igualdade de oportunidades.

Que a prisão de Cunha seja, simbolicamente, o início de um novo capítulo na vida nacional e não apenas o descarte de um malfeitor que já cumpriu seu sujo papel.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.