O Estaleiro e o esquecido Joaquim Nabuco

João Bosco Tenório Galvão
Advogado

Publicação: 25/10/2016 03:00

Na entrada do Porto de Suape, encontramos o Engenho Massangana, que pertenceu a Joaquim Nabuco. Ali o abolicionista ilustre fez laboratório com o abolicionismo. No local hoje usado como escritório da Fundarpe, a casa grande domina a cena, e a sua frente está o prédio da senzala, devidamente conservada e limpa, pois fora da sujeira do tempo e pelos pecados da época da escravidão, parece uma fotografia daquela prática escravagista.

Ali bem perto está Porto de Galinhas, local em que, segundo a lenda reza, havia comércio de escravos até mesmo depois da abolição. Os vendedores avisavam pelas ruas que tinha galinha nova! Eram escravos trazidos por Navios “negreiros” às escondidas... O primeiro mundo patrocinava tudo...

Bem perto desse local, o EAS (Estaleiro Atlântico Sul), já produziu 9 Navios classe SUEZMAX, para a TRANSPETRO/PETROBRÁS, tendo sido todos eles batizados com nome de abolicionistas e outras personalidades que lutaram contra a escravidão no Brasil. São esses os nomes usados: João Cândido, Zumbi dos Palmares, Dragão do Mar, Henrique Dias, Marcílio Dias, André Rebolças, José do Patrocínio e o Machado de Assis. Como vemos algumas dessas personalidades lutaram pelo fim da escravidão, outras nem tanto...

Fico imaginando a cena no século 19 quando essa mão de obra escrava foi comércio local, e que plantou o Baobá na entrada do Porto de Suape. O maior deles, plantado também por mãos escravas e trazido da África, está em Ponte D’Uchôa na beira do Capibaribe, enorme e majestoso!

O Engenho Massangana, testemunho disso tudo, nada fala do que viu ou ouviu dessa época, e a montagem cénica do atual ambiente não parece atrair turistas ou estudantes pelo menos curiosos. Essa história passada ao largo do bom senso e humanismo parece envergonhar quem passa no local...

Coincidência ou não, só o EAS já construiu 9 navios tanque, e o nosso Joaquim Nabuco que entrou para a história como um abolicionista convicto, foi esquecido nesse procedimento. Todos esses navios feitos com mão de obra local, possivelmente com descendentes de escravo do Engenho Massangana, provando ser Pernambuco um Estado que leva a sério no que tange trabalho, escravo ou não, viabilizou efetivamente a fabricação de todos eles!

A Petrobrás que foi pilhada por gregos e troianos, já anunciou que vai quebrar o contrato existente para construção de 25 Navios daquela classe. Valeria a pena o investimento estrangeiro e sinal de projeto nacionalista visando o soerguimento da Transpetro, idealizado por gente que entende desse assunto. Ocorre que afretar (alugar) navios estrangeiros gera bons lucros para muitos diretores da empresa, e a existência de 200 navios estrangeiros afretados, ofusca os 40 navios de bandeiras brasileiras com brasileiro a bordo! A propósito, o João Cândido, fabricado como número 1, recentemente recebeu o prêmio de melhor performance dentre todos os navios da Transpetro! Disseram na época de seu lançamento que ele estava cheio de defeitos de construção. E se tivesse saído bom?...

Acho que seria de bom alvitre alguém do governo do nosso Estado acessar a Petrobrás, e solicitar que o próximo petroleiro ostentasse o nome de Joaquim Nabuco na sua proa, afinal, talvez seja o único abolicionista que deixou um legado real do tempo da extinta escravidão, para que a história ali se fizesse. Tá tudo lá! ...

Tem que ser ligeira essa ação, antes que fechem o EAS, em nome da bancarrota em que meteram nossa Petrobrás, a qual, num passado recente nos deu auto suficiência do Ouro negro!

O presente aí está... 

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