Rosa? para quem?

Aurélio Molina
Ph.D, professor da UPE e membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina

Publicação: 25/10/2016 03:00

O câncer de mama, doença crônica, heterogênea e multifatorial, deve ser considerado um problema de saúde pública que ceifa a vida, todos os anos, de cerca de 500 mil mulheres em todo mundo, sendo que no Brasil a taxa de mortalidade anual é em torno de 14 óbitos para cada 100 mil mulheres. Portanto, toda ação que aumente a circulação de informações sobre causas e prevenções merece apoio. Todavia, importante polêmica dos últimos 15 anos (acentuada recentemente) sobre a utilização da mamografia no diagnóstico precoce de rotina não tem recebido a devida atenção dos veículos de comunicação participantes do chamado Outubro Rosa. Isto enviesa tal intervenção afetando o direito das mulheres ao acesso a todas as informações, prejudicando o exercício do princípio bioético da autonomia e a plenitude de seu livre arbítrio. É valoroso se submeter ao exame mamográfico sistematicamente? A partir de que idade? Existem riscos associados? Vários estudos têm sido realizados na tentativa de responder tais indagações e, no momento, os resultados sugerem fortemente que, em campanhas de rastreamento para um diagnóstico precoce, a mamografia não deve ser realizada antes dos 50 anos em mulheres que não tenham um risco aumentado (a grande maioria da população). A partir desta idade a melhor frequência parece ser a de um exame a cada dois ou três anos. Infelizmente, quanto à avaliação risco/benefício, os dados atuais, mais do que frustrantes (pois os benefícios são semelhantes aos obtidos com boa nutrição, atividade física, controle de peso, diminuição de bebida alcoólica, aumento da amamentação e diminuição do tabagismo) são preocupantes, pois sugerem que para cada vida salva por exames sistemáticos 3 mulheres serão tratadas desnecessariamente. Essas estimativas inclusive levaram ao Swiss Medical Board, uma iniciativa da Conferência dos Ministros de Saúde da Suíça e da Associação Médica e Academia de Ciências Médicas do mesmo país, em 2014, à recomendação que não se instalasse mais nenhum programa de rastreamento do câncer de mama baseado em exames mamográficos e que os existentes deveriam ter um prazo estabelecido para serem interrompidos, o que causou ardoroso debate, inclusive na própria antiga Confederação Helvética. Neste contexto é importante frisar o posicionamento da Organização Mundial da Saúde, adotado pelo Instituto Nacional do Câncer, que além de só recomendar o rastreamento mamográfico em mulheres entre 50-69 anos, a cada dois anos (apenas em países com bons recursos para a saúde e com sistemas bem organizados), indica a necessidade de uma decisão compartilhada que respeite os valores e preferências das mulheres. A não divulgação destas informações robustece a visão defendida por alguns autores e organizações, como a Breast Cancer Action, de que existe uma “indústria do câncer de mama” que se preocupa mais com a “lucratividade financeira” da doença do que com sua resolução. Finalmente, vale lembrar que a liberdade de informar é uma exigência constitucional para que o/a cidadão/ã exerça livremente sua cidadania, não se podendo faltar com a verdade sobre aquilo que se informa, por afirmação ou omissão (inclusive das controvérsias), para não se manipular ou iludir quem quer que seja, inclusive a “opinião pública”.

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