Ensino e cognição em rede

Maurício Rands *
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Publicação: 24/10/2016 03:00

Em recente colóquio sobre educação, ouvi dos professores José Ricardo e George Diniz a observação de que a duração da aula de 50 minutos foi fixada, lá atrás, pelo espírito empírico dos ingleses. A partir da observação de que esse era o tempo médio de concentração dos alunos. Agora, na era da informação multimídia e multidirecional, esse lapso teria caído para 7 minutos. Isso impacta os métodos pedagógicos. Para reter a atenção do estudante, a aula precisa ser mas interativa, ligar os conceitos aos casos concretos. Em ziguezague. Uma pedagogia capaz de despertar o interesse discente pode operar milagres. Como já pontuava Paulo Freire e a sua alfabetização baseada no contexto da vida quotidiana do alfabetizando. Como estão a demonstrar as reiteradas conquistas de alunos das escolas públicas e privadas de nosso estado em olimpíadas de robótica, história, matemática e outras. O ensino vai se tornando menos “conteudista”. Menos enciclopédico. Torna-se menos necessária a memorização estática de informações. Para que decorar informações se elas estão todas na rede? O fundamental passa a ser a capacidade de organizar o pensamento e contextualizar os fatos, numa perspectiva aberta e crítica. O aluno precisa encontrar um ambiente em que a sua criatividade não seja encapsulada como na pedagogia tradicional. Quantos talentos não foram asfixiados pelas antigas metodologias de ensino concentradas na "decoreba" de um sem-número de dados e fórmulas? Quanto da criatividade não foi desperdiçada ou subutilizada?

Aqui no Diario, o professor Sérgio Rezende discorreu sobre as razões (muitas) pelas quais o Brasil nunca teve um Prêmio Nobel. Além das fortes razões estruturais e culturais apontadas, pode-se cogitar a hipótese de que nossos métodos de ensino historicamente não favoreceram a criatividade e a disciplina requeridas para as grandes contribuições ao avanço do conhecimento. Compare-se o ensino nas universidades anglo-saxãs com o das latinas. Nessas últimas é forte a expectativa de que o docente seja capaz de ministrar grandes aulas discursivas através da qual ele transferiria o saber para as mentes dos alunos. Estes, não raramente, preferem a atitude passiva de ouvir a peroração dos mestres. Em contraste, numa universidade norte-americana ou britânica, o estudante é convidado a se debruçar sobre um determinado tema para apreender os conceitos em imediata interação com o desafio de solucionar problemas a eles relacionados. A aula passa a ser um instante privilegiado onde os alunos partilham o que estão pesquisando com os demais colegas, sob a orientação de um “outro colega” mais experiente. Nesses encontros, abre-se a oportunidade para o esclarecimento de dúvidas, para a orientação bibliográfica e para a prática do aprendizado coletivo. Acrescente-se a preocupação com o rigor dos métodos de raciocínio e aprendizagem, e talvez aí esteja o passaporte para o desenvolvimento da capacidade de inovação. De pensar fora da caixa. De aplicar a teoria à prática e, vice-versa, de teorizar a partir dos reais problemas do contexto em que se vive.

Essas metodologias de ensino podem ter um efeito positivo nas conexões dos neurônios dos cérebros humanos. Como se sabe, nossos neurônios são responsáveis pela transmissão de impulsos nervosos que movem nosso pensamento e ação. Eles se comunicam através das sinapses, as quais recebem estímulos da interação com o ambiente. Dependendo da complexidade desses estímulos do ambiente, as redes de sinapses vão propiciar um aprendizado mais ou menos complexo e criativo. Daí surge o desafio de adequar o ensino brasileiro a essa realidade complexa de estímulos de um ambiente onde o aluno é bombardeado com um sem-número de informações das diversas mídias a que está exposto. O desafio é trazer para as escolas e universidades toda essa complexidade e organizá-las com método. Trata-se de treinar as redes de sinapses dos alunos para que elas bem organizem, processem e desenvolvam criativamente os variados estímulos provenientes do novo ambiente multimídia.

* PhD pela Universidade de Oxford, advogado e professor de Direito da UFPE

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