A natureza das coisas

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 21/10/2016 03:00

Me recordo de uma missa que assisti na Igreja do Bonfim, na Bahia. Os alto-falantes externos à igreja levavam as palavras do padre a toda a gente que subiu a ladeira, e as fitinhas amarradas no gradil davam um colorido bonito àquele cenário que mistura a palavra do evangelho com as imagens dos orixás, venerados pelas baianas do entorno.

Sou católica e tenho um pequeno santuário em casa, que coloquei sobre o aparador da sala e à sombra de um belo coqueiral, assinado por José Cláudio. Quando era criança costumava ir à Igreja da Penha com minha avó, para receber a bênção de São Félix, e não dispenso o escapulário ou um pingente do espírito santo no pescoço. Mas em minha varanda tenho a imagem de Iemanjá, vestida de azul e branco, sempre olhando para o mar.

O sincretismo religioso tão presente no Brasil me acalma e anima. É um alento para esses tempos sombrios e intolerantes. A convivência do catolicismo com as religiões africanas e o espiritismo, tão percebida em nosso dia a dia, nos faz lembrar que mais que a crença, importa o amor que está no coração das pessoas.

Recentemente estive na Casa de Fernando Pessoa, em Lisboa, e conheci dois brasileiros que também visitavam o acervo. Um deles é do interior de São Paulo e o outro cearense, e são ambos espíritas. Estava sentada em uma das salas, enquanto lia as poesias escritas nas paredes, quando escutei uma conversa ruidosa se aproximando. Assim que descobriram que também eu era brasileira, puxaram duas cadeiras e me incluíram no papo.

Ambos se tornaram espíritas em razão de graves perdas afetivas: as mortes prematuras da mulher e da filha. O cearense adora Fernando Pessoa e me dizia acreditar que os 136 autores fictícios inventados pelo escritor eram a expressão escrita de mensagens ditadas pelos espíritos. Como a esta altura eu já havia visitado a biblioteca particular de Fernando Pessoa, era para mim muito evidente como o escritor alimentava a sua genialidade e imaginação. De todo modo, próxima vez que encontrar José Paulo Cavalcanti Filho vou perguntá-lo o que pensa do assunto.

Para mim, o ponto alto da conversa foi quando o cearense me disse que estava preparando uma playlist para ser tocada em seu velório. Queria que ficassem todos bem, já que ele teve uma vida feliz e me disse ainda que sua ideia era escolher cem músicas e que, a cada dez músicas tocadas, queria que fosse repetida a canção “Maluco Beleza”, de Raul Seixas.

É claro que eu também comecei a pensar quais músicas gostaria que tocassem em meu velório. Maria Bethânia e Chico Buarque estarão lá, com certeza. Mas acho que a última música será uma canção popular, escrita por Accioly Neto.

Já posso mesmo ver meus amigos, tristes, sentados, batendo com os pezinhos no assoalho, ao ritmo da música, e balançando também as cabeças de um lado para o outro. Quem sabe um casal mais entrosado se arrisque até a dançar o forró em minha homenagem enquanto escutam a voz de Flávio José cantando pelo spotify: “Se avexe não/ Amanhã pode acontecer tudo/ Inclusive nada/ Se avexe não/A lagarta rasteja até o dia/ em que cria asas/ Se avexe não/ Que a burrinha da felicidade/ Nunca se atrasa/ Se avexe não/ Amanhã ela para/ Na porta da sua casa...”

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