Bob Dylan e Jackson do Pandeiro

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 21/10/2016 03:00

Esse Nobel foi justo e certo. Por qualquer critério. Sobretudo pela poesia nas letras de Dylan. Quantas estradas um homem deve percorrer/ Para poder ser chamado de homem?/ Quantos oceanos uma pomba branca deve navegar/ Para poder dormir na areia?/ Sim e quantas vezes as balas de canhão devem voar/ Antes de serem banidas pra sempre?/ A resposta, meu amigo, está soprando no vento.

Problema, para nós brasileiros, é que na língua portuguesa os versos perdem muito de sua beleza. E não por conta da tradução. Veja-se, por exemplo, esse Blowin’in the Wind.  É muito mais que um insípido Soprando no Vento. Há uma cadência que se perde. O som repetido dos três “ins” (win, in, wind), lembrando o vento que passa. O mesmo ocorre com o famoso verso Never, Never, Never, do “Corvo” de Poe. Melhor que Nunca, Nunca, Nunca. Em inglês, lembrando o próprio som da palavra Corvo (Raven). Ou, em Shakespeare, trecho do monólogo em que “Hamlet” diz Words, Words, Words. Quase um lamento. Que perde todo encanto se traduzido em um pobre Palavras, Palavras, Palavras. Enfim...

Num primeiro momento, até lamentei. Se a ideia era premiar letras de músicas, melhor seria Leonard Cohem. Poeta monumental. Como escreveu em “Rites”: A família ficou em pé diante da cama/ Enquanto ele deitava em um travesseiro ensopado de sangue/ O coração meio podre/ E a garganta seca de arrependimento... O Oscar Wilde da música popular, assim é tido por seus devotos. Entre os quais me incluo. Engraçado é que são parecidos até nos truques dos nomes. Que Robert (Bob) Allen Zimmerman acabou sendo Dylan (homenagem ao poeta inglês Dylan Thomas). E Cohen hoje, depois de converter-se em um monge zen (budista), passou a ser Dharma de Jikan (O Silencioso). Merecia. Mas o próprio Cohen gostou da escolha: Para mim, é como dar uma medalha ao Everest por ele ser o mais alto do mundo. Então seja.

Continuo lamentando que o Brasil ainda não tenha seu Nobel. Andamos perto. Com Dom Helder, para o da Paz. Uma iniciativa abortada pelo Golpe Militar de 64 – como demonstra farta documentação da Comissão da Verdade de Pernambuco. Na literatura, Jorge Amado. Prejudicado por ser declaradamente comunista. Num tempo em que isso era pecado. Grave. E Ferreira Gullar, o enorme poeta do “Poema Sujo” – Turvo, turvo /A turva/ Mão do sopro/ Escuro. No Nobel de Vargas Llosa, eram dois os candidatos. De Estolcomo, ligaram para o brasileiro e pediram que, na manhã seguinte, ficasse junto ao telefone. Em casa. E que o mantivesse desocupado. Assim foi. Até quando as televisões começaram a noticiar o prêmio do peruano. E Gullar foi trabalhar.

Mas, aqui, desejo apenas lembrar uma lenda. E se non è vero, è ben trovato. Segundo ela, Dylan veio se apresentar no Rio de Janeiro. Bem novinho. E, toda madrugada, ficava no Beco das Garrafas. Ouvindo, encantado, nosso Jackson do Pandeiro. Daí teria vindo a inspiração para  Mr. Tambourine Man (Senhor tocador de Pandeiro). Basta ver a letra, para desconfiar: Hei! Senhor Tocador de Pandeiro, toque uma canção para mim/ Não estou com sono e não há lugar onde eu possa ir/ Na aguda manhã desafinada eu o seguirei/ Embora eu saiba que todo império retornou ao pó/ Leve-me a uma viagem em sua mágica nave ressoante/ Longe do alcance distorcido da tristeza insana/ Sim, para dançar sob um céu de diamantes. Viva Dylan, pois. E, também, viva Jackson do Pandeiro.

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