Os muros da xenofobia

Pedro Eurico de Barros e Silva
Secretário de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco

Publicação: 20/10/2016 03:00

Vinte e sete anos depois da queda do Muro de Berlim, na Alemanha, um grande símbolo de um mundo dividido que foi derrubado com transmissão ao vivo pela televisão, a Europa se prepara para construir uma nova muralha, desta vez no norte da França, país que propaga desde a Revolução Francesa os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade.

Vi na imprensa neste último fim de semana que já foi autorizada a construção do já famoso Muro de Calais, uma parceria entre governo britânico e francês para impedir que refugiados sírios e de outros países de extrema pobreza do Oriente Médio e da África entrem na Inglaterra. O muro será construído na cidade francesa mais próxima do Reino Unido em que existem acampamentos de refugiados conhecidos como selvas, por conta da situação precária onde vivem cerca de sete mil pessoas.

Assim, os governos dos dois países pretendem reduzir as invasões das rodovias pelos migrantes que, segundo a polícia local, chega a intervir numa só noite mais de trinta vezes para impedir que grupos forcem a entrada em carros e caminhões para passar a fronteira. Coube a Londres o pagamento do muro, estimado em 2,7 milhões de euros e faz parte de um pacote oferecido pelo Reino Unido orçado em 17 milhões de euros para que a França impeça que migrantes entrem na Grã-Bretanha.

Essa muralha é muito mais que uma obra física. É simbolo também. Representa o fracasso na forma como a comunidade europeia enfrenta a expressiva presença dos refugiados em seu território. É uma resposta insuficiente à situação e a negativa de uma estratégia coerente que envolva um compromisso coletivo para receber com dignidade essas pessoas, na maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, como divulgou a ONG Anistia Internacional.

De acordo com informações divulgadas na imprensa este ano, o “ total de pessoas deslocadas - homens, mulheres e crianças forçadas a deixar suas casas em razão da guerra ou de perseguições - chegou em 2015 a 65,3 milhões em todo o mundo”.

O relatório Tendências Globais, que foi divulgado pela Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), aponta que em 2015, 3,2 milhões de refugiados se encontravam em países industrializados aguardando solicitações de refúgio. Ainda de acordo com a ONU, apenas 14% dos refugiados procuraram refúgio na União Europeia, contra 86% que estão em países de baixos e médios rendimentos fora da UE.

Mais próximo a nós refugiados de outros países como o Haiti e a Venezuela buscam abrigo no Brasil. Só no ano passado, o governo brasileiro anunciou a  concessão de visto de residência permanente a 43,7 mil haitianos que vivem no país. Já o  governo de Roraima, segundo registros divulgados na imprensa,  vai criar um ‘gabinete de emergência’ para tratar da grande quantidade de  refugiados venezuelanos que atravessam a fronteira ao Norte do Brasil. Cerca de trinta mil venezuelanos já estão em território brasileiro.

Essa é uma questão que deve ser debatida no Brasil que é um país que tem em sua história exemplos de acolhimento a povos estrangeiros. Afinal de contas, para enfrentar essa questão, a pior solução é torná-la invisível, deixá-la por trás dos muros. É preciso dividir responsabilidades. É preciso lembrar que essas pessoas saíram de condições deploráveis em seus países de origem para enfrentarem muros e acima de tudo, a xenofobia.

Quem luta pelos direitos humanos não pode aceitar que a alternativa que resta para essas pessoas que buscam uma nova chance em meio ao caos de seus países de origem seja as muralhas do abandono e da invisibilidade. Se essa for a saída, os ideais da Revolução Francesa tão propagados na Europa como centro civilizatório estarão apenas nos livros de história.

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