Gabriela consagra obra do escritor Paulo Gama

Publicado em: 20/08/2018 03:00 Atualizado em: 20/08/2018 09:06

Costumo dizer nas minhas aulas que escritores não devem recorrer a familiares para pedir opinião sobre poemas e prosa. Filhos e pais, em geral, não são bons conselheiros porque julgam com o coração.. ”que lindo, meu filho”...”não não, não escreva sobre este assunto, não faça mais”.  A mulher de Dostoievski impediu que ele publicasse o último capítulo de Os Demônios...sob a alegação de que era cruel demais.... E é mesmo...é belo e terrível. Conta a confissão de Stavroguin ao bispo Thikon, em que se fala do estupro de uma criança com o suicídio dela...terrível, incrivelmente terrível...Essa semana conversei com Ronaldo Correia de Brito sobre isso....Se Dostoievski tivesse atendido à mulher teria roubado da literatura um dos seus momentos mais cruéis e horrorosos...E, por isso mesmo, mais humanos....Afinal, o humano é cruel e horroroso...Dantesco...Não suporta adjetivos...O escritor deve estar pronto para enfrentar o horror, a crueldade, o terrível....Esta é a sua responsabilidade diante de Deus e do mundo....A família quer sempre poupá-lo.. Mas um escritor, um verdadeiro escritor não pode ser poupado nunca. Ao contrário será desmoralizado por máquinas fotográficas, câmeras cinematográficas e celulares. Além de não cumprir sua missão.

Mas, como se diz comumente, toda regra tem exceção. Por exemplo, tenho em mãos o livro Dialeto das Tardes, poemas e contos de Paulo Gama, com “orelhas de sua filha Gabriela Gama e prefácio de Luiz Paulo Reis Galvão. Vou me deter nas “orelhas de Gabriela, justamente por ser filha e admiradora de Paulo. Com absoluta coragem e delicadeza ela destaca, justamente, o conto Rezem pela Senhora Anette, que tem dois finais, contados com um vigor firme e forte. Mas não é para a filha.

Talvez um conto pra inimigo ler e comentar. Por isso resolvi saudar a participação de Gabriela, embora o prefácio de Luiz Paulo tenha qualidades. A coragem e a missão da filha me entusiasmaram. Claro que meu maior entusiasmo vai para o livro.

Quem sabe vocês dividem depois esta responsabilidade comigo. Leiam o livro, mas não esqueçam as “orelhas”, depois me digam se tenho razão. E ainda tomaremos um uísque com o autor, velho boêmio do Galo da Madrugada ao lado de Ana.

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