Condenados à vida: o livro de Carrero

Publicado em: 25/07/2018 03:00 Atualizado em: 24/07/2018 22:46

Juro que não tive inveja, quando meu querido Raimundo Carrero veio todo risonho e feliz, me ofertar o livrão, contendo quatro de seus romances. Inveja a gente tem quando o homenageado incomoda, não merece a honra que lhe concedem, mas não quando é vitória de amigo de muito tempo, desses que a gente guarda do lado esquerdo do peito, reconhecimento do valor de uma vida inteira de trabalho duro, de amor incondicional, exigente, pelo fazer literário,  marcado pela modéstia de quem não se utiliza da literatura para aparecer, brilhar, mas serve a literatura com a humildade e a modéstia de que falava Katherine Mansfield. Publicado pela Cepe, um senhor trabalho de editoração, o livro está sendo lançado por estes dias na Feira de Paraty, e abrange parte de 18 anos da obra romanesca de Raimundo Carrero. Só lamentei uma coisa (“rien n’est parfait, a dit le Renard”, lembram?): que não se encontra aqui, Bernarda Soledade, a tigre do sertão, que 1975 já marcava a estreia do autor, já anunciando uma literatura de desafios, em texto que não escondia, desde o título, a filiação – melhor, a admiração – a um certo grande poeta.  Uma tradição literária de mergulho fundo na vida, além das aparências, de personagens complexos, paradoxais, torturados, divididos entre a consciência de ser e de estar, de parecer, deslocados num mundo que só aparentemente os entende. Buscando a compreensão até quando assumem amar a solidão, construindo-se altos muros de proteção contra a maldade dos que os cercam. Que rejeitam seu ódio, e mesmo seu desejo de amar, de se fazer amado. Carrero inquieta, incomoda o leitor quando lhe desvenda a dureza da realidade do mundo em que vive. Não faz concessões, não busca adesão à legibilidade do texto, à compreensão da psicologia dos personagens, raras vezes lógicos, coerentes consigo mesmos. Nem sempre a trama do romance é compreensível a quem deseja distração no encontro com um livro de ficção. O interesse e a simpatia do leitor não nascerá de uma leitura fácil, a beleza do texto se faz aqui pela justeza da escrita, pela exigência do estilo, da expressão exata, da palavra que não pode ser substituída. E até da inteireza dos personagens, que a gente aceita, admira. Mesmo se nos deixam perplexos, se nos convencem que, afinal de contas, a vida não é tão fácil como parece.

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