Nasce uma poetisa

Publicado em: 24/07/2018 03:00 Atualizado em: 24/07/2018 08:55

Paula Berinson é da espécie de poeta que cala o que sente; de outro modo, sabemos, não teríamos o poeta, mas o fraco fazedor de versos. Para isso, entretanto, ela sabe que precisa esperar a passagem da estação primaveril - quando tudo irradia sensações calorosas, sabores quentes -, o que não quer dizer que seus poemas sejam frios, empedernidos, cerebrais. Isso não! Pois eles são feitos daquela espécie de linguagem que jaz no silêncio, aí onde, faceando a angústia, o poeta habita o informe, discreto e inefável modo de existir humano, para nos entregar, enfim, a metáfora viva.

Neste magnífico livro de poemas recentemente publicado - quando as peras estiverem maduras, ela nos fornece valiosas lições sobre o processo de criação artística, especialmente em Camuflagem. Ela nos faz compreender que é preciso que o artista mantenha o estranhamento, deixando-se distante e indiferente, de modo a afastar-se do sentimento do mundo e assim bem interpretá-lo e revelá-lo.

Assim é que, cercado dos livros e da caneta-tinteiro, o sujeito lírico de seus versos, em linguagem metalinguística, diz-nos que o poeta apenas dorme no instante em que o bicho ferino, se camufla nas suas veias, / E faz o sangue jorrar dos dedos, e assim Até que o chame/ A primavera tardia. Tal como acredita Kröeger, o alterego do grande romancista alemão, Thomas Mann, ela sabe que morre o artista quando se torna homem e começa a sentir.  

Causando-nos eloquentes efeitos de surpresa, no abundante uso de metáforas inventivas, Paula Berinson traceja o Tempo, sincronicamente, nas artérias da estação outonal, quando tudo se torna um mesmo evento: enquanto os ratos e os cães se enredam na vida mordida, dá-se o último beijo do galo, anunciando a saudade; e assim transcorre a guerra no espaço topológico do sujeito Benu (ouçamos bem.nu); e vige Deus e as peras maduras, na transubstanciação do Verbo; e Cérbero, no Inferno retorcido; e  o silêncio, no grão do cotidiano;  e, na falsa língua, a prova: a verdade da mentira dos amantes. E as rosas são as festas dos jardins, e, mais, ainda!

Convido-os, pois, os leitores ativos a fazer essa viagem siderante, num magnífico espaço onde o Tempo é duração que não se interrompe:

E grita, branco e ossudo: “Adeus, adeus”.

Mas ninguém nunca ouve.

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