Cebola crua com sal e broa José Paulo Cavalcanti Filho Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 20/07/2018 03:00 Atualizado em: 20/07/2018 10:57

Trata-se da merenda servida, todos os dias, na Quinta do Carvalhal. Cenário bucólico onde o maior romancista português de hoje, Miguel Souza Tavares (de Equador), passava os verões de sua infância. Não costumo recomendar livros. “Cada qual para o que nasce/ Cada qual com sua classe/ Seus estilos de agradar” – ensinava o embolador Rouxinol, de Gravatá. Mas essa autobiografia precoce é diferente. Para melhor. Muito melhor. Por conta da qualidade do texto. Porque permite compreender as transformações de Portugal, depois do 25 de Abril. E, sobretudo, pelas comparações com nosso fraturado Brasil. Como amostra, seguem umas poucas lições:

• Vida: “O ser humano foi feito para resistir e se adaptar”.  “A vida é breve e eu era novo demais”. “Era novo e não se é novo duas vezes”.

• Liberdade: “Se me perguntarem qual o valor mais importante, o bem mais precioso, que eu aprendi a respeitar ao longo da minha vida, no meu trabalho, com as pessoas que conheci, não tenho a mais pequena hesitação em responder: a liberdade”. “A liberdade foi, de facto, a minha grande escola de vida. Aprendi seu valor e o valor da desobediência cívica contra o arbítrio e o abuso”.

• Política: “Para mim, foi sempre uma coisa complicada de gerir as fronteiras entre as relações pessoais e profissionais com os políticos”.  “Não sei se o país tem emenda. A minha aposta é que, assim, não tem: nem emenda nem futuro”. Com sua opinião sobre nossas elites, lembrando Felipe Gonzales que disse: “Vítor (Constâncio), és demasiado inteligente para político!”.

• Reforma Agrária: “A miséria no campo era absoluta, visível, feia como uma noite de tempestade, dia a dia sofrida e impossível de ser escondida”. Com críticas. “A chamada Reforma Agrária, em nome da produção e da terra a quem a trabalha, tratou de ocupar (em Portugal), primeiro que tudo, não as terras abandonadas ou maltratadas, mas, as que estavam bem aproveitadas, que tinham máquinas e investimentos, que tinham gado ou cortiça a colher. E, uma vez aproveitadas as riquezas e não havendo quem nelas quisesse investir ou semear, passava-se a outras. E assim, sucessivamente, até não haver mais herdades a produzir e a produção cair a pique”. “Não é por acaso que o Estado ficou falido e que todos ficamos falidos por arrasto”.  

• Brasil: “Um ciclo da desilusão com os vários escândalos a que o mesmo sistema político, por assim dizer, convidou o PT de Lula da Silva a também ele sujar as mãos na lama. Compreendi que mais uma esperança tinha morrido para o Brasil”. “D. Helder Câmara, arcebispo de Olinda, foi talvez o homem que conheci mais próximo de um possível Deus”.

• Os pais: Miguel era filho do advogado Francisco Sousa Tavares e de uma deusa da poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen. O livro é todo perpassado por lembranças que o autor tem dos dois. “Nunca minha mãe deixou de ser uma memória constante e uma saudade diária – como hoje ainda é”. “Tinha um dom que sempre me esforcei por conseguir aprender com ela, o de saber estar sozinha”. E traz uma informação preciosa. A de que o poema Porque foi escrito, por sua mãe, em homenagem ao pai – na sua permanente luta contra a ditadura de Salazar. Até conta como eram os encontros entre os dois, com o pai preso na PIDE: “Eles espalmavam as mãos contra o vidro grosso, cada um do seu lado, tentando absurdamente sentir os dedos um do outro”.

Porque: E já que falamos nos versos antológicos de Sophia, aqui seguem: “Porque os outros se mascaram mas tu não/ Porque os outros usam a virtude/ Para comprar o que não tem perdão/ Porque os outros têm medo mas tu não/ Porque os outros são os túmulos caiados/ Onde germina calada a podridão./ Porque os outros se calam mas tu não./ Porque os outros se compram e se vendem/ E os seus gestos dão sempre dividendo./ Porque os outros são hábeis mas tu não./ Porque os outros vão à sombra dos abrigos/ E tu vais de mãos dadas com os perigos./ Porque os outros calculam mas tu não”.

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