Francisco Brennand e a Academia dos Emparedados da Várzea

Publicado em: 04/07/2018 03:00 Atualizado em: 04/07/2018 08:53

Após sua mudança para Versalles em 1661, Luís XIV abria uma vez por semana parte dos seus salões para receber a nobreza intelectual e os artistas, tendo como foco exclusivo a troca de ideias e refeições. No Rio de Janeiro tivemos, durante décadas, duas famosas reuniões semanais de amigos voltados para as artes e os mais diversos saberes, com a mesma finalidade, encontros que marcaram época, nas casas de Roberto Burle Marx e Plínio Doyle. Havia, também, no Recife, a casa-refúgio semanal da intelectualidade pernambucana, do poeta e acadêmico Waldemar Lopes, com a mesma finalidade gastronômica e cultural.

Ainda no Recife, na década de 70, quando grande parte dos meios acadêmicos e intelectuais vivia um doloroso exílio interno, um curto-circuito longo e insuportável da democracia e dos Direitos Humanos do país, o pintor e ceramista Francisco Brennand abria as portas da secular Casa-Grande do engenho São Francisco, na Várzea do Recife, sempre aos domingos, para almoço e troca de ideias com um seleto grupo de amigos, intelectuais, poetas, pintores, humanistas, professores universitários, arquitetos, cineastas, jornalistas, todos interessados no livre pensar e nos mistérios da criação estética, no triunfo irrevogável da arte. (Continua)   Morando distante, fui participante desses encontros apenas três vezes, levado pelos anfitriões Francisco e Deborah, tive a sorte de sentar-me perto do padre, filósofo e poeta Daniel Lima, meu caro amigo. Foi um encontro memorável, ouvindo Daniel Lima a falar de filósofos católicos de nossa grande admiração, como Jacques e Raissa Maritain, Georges Bernanos, Blaise Pascal, Alceu Amoroso Lima, Guillermo de Ockham. Nas três oportunidades dos colóquios de Francisco tive como avaliar o fio inspirador de que se nutria esses encontros de celebrações culturais, tão informais e tão diversificados. Para que se tenha uma ideia dos escolhidos para esse banquete intelectual, cito de memória os nomes mais frequentes, semanalmente, os mais esperados pelos donos da Casa-Grande da Várzea: escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, poeta e ensaísta César Leal, Renato Carneiro Campos, pintora Tânia Carneiro Leão, os engenheiros e intelectuais Marcelo e André Carneiro Leão, pintora Maria Carmen, poeta Thomás Seixas, médico Luiz Tavares, jornalista Paulo Fernando Craveiro, poeta Orley Mesquita, poeta João Cabral de Mello Neto e escritor Aloisio Magalhães, considerado pioneiro na introdução do design moderno no Brasil (ambos quando estavam no Recife). Com eles, estava lançada a base da mais irreverente e informal, embora sem nada de anárquico, Academia do mundo: a Academia dos Emparedados da Várzea. Não tinha aqueles chatos discursos de posse (para velhinhos dormir), nem fardões, nem retratos saudosos nas paredes.

Não tinham esses encontros semanais nenhum interesse de rebeldia ou contestação, pautados para discutir a ditadura que se instalara no Brasil daquela época, por mais desprezível e imperativo que fosse. Era um puro espírito de confraternização intelectual, uma troca de ideias sem nada de previamente combinado. Fazia inveja a outras academias lá de fora. É claro que não eram alheios ao que se passava no Recife e no resto da Nação ultrajada pelo golpe militar de 64, mas o que predominava eram impressões de leituras, as novidades estéticas surgidas dentro e fora do Brasil, seus aspectos éticos e criativos. Leitores privilegiados, isto sim, exigentes nas escolhas do que levavam pra casa a partir dos clássicos, mas com o olhar voltado para as novas correntes da criação e do fazer literário. Ouvia-se Deborah a dizer seus belos poemas, Francisco Brennand a falar de sua arte de pintor e ceramista, sobre seus escritos diarísticos publicados depois em quatro belos volumes. E o que era a Várzea recifense do Capibaribe na voz do genial artista: “Eu escolhi a Várzea como o centro do mundo, minha pátria e meu território sagrados.” Se ao menos um terço de tudo o que se discutia naquela Academia, durante duas décadas, fosse gravado, teríamos hoje um dos mais belos legados intelectuais do Brasil.

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