O que determina as escolhas dos eleitores?

Publicado em: 02/07/2018 03:00 Atualizado em: 02/07/2018 08:44

Eleição tem muito a ver com a capacidade dos candidatos de convencer os eleitores sobre o futuro. Quando conseguem semear a esperança de que trarão dias melhores, as candidaturas despertam a emoção que conquista o eleitor. Mas isso não quer dizer que a emoção da escolha é destituída de razão. Para se emocionar, o eleitor  faz raciocínios que justificam sua esperança. Esta não se sustenta sem argumentos. Tomem-se exemplos recentes. Arraes em 1986 conquistou os corações e as mentes dos pernambucanos com o tema 'a esperança está de volta'. Lula venceu em 2002 falando da 'esperança para vencer o medo'. Obama, racionalmente, convenceu os americanos de que eles 'podiam' mudar os EUA e suas vidas.

Eleição tem a ver também com ideologia e religião. A similaridade de visão de mundo leva muitos eleitores a relevarem defeitos abomináveis de candidatos com os quais se identificam ideológica ou religiosamente. Isso aconteceu com muitos republicanos que votarem em Trump mesmo sabendo do seu autoritarismo, desprezo pelas instituições e despreparo. Essa leniência por aqui também não é rara.

Eleição tem a ver com confiança e afeição. O eleitor quer saber se o candidato vai honrar as expectativas que nele deposita. E, para isso, a trajetória do candidato é um indicador.

Eleição tem a ver ainda com a exploração do sentimento do medo. Por isso, não é incomum a fixação do eleitorado em candidatos previsíveis, que não lhes instilam receio. A cartada do medo já é clássica. Agora, embora sem sucesso, fizeram o mesmo contra Lopez Obrador no México. O mesmo faz Bolsonaro brandindo o medo da violência e da corrupção. A direita sempre buscou utilizar o receio que toda mudança causa. É mais fácil convencer alguém de que é possível melhorar a vida apenas com pequenas mudanças, preservando-se as estruturas estabelecidas. Que essas reforçam o sentimento de segurança, tão caro aos seres humanos. As mudanças estruturais mais profundas, geralmente advogadas pelos progressistas, são sempre mais difíceis. Mas, elas ocorrem. Quando seus defensores convencem a opinião pública de que as estruturas atuais estão esgotadas. Aí o eleitor vence o receio às mudanças e aposta em uma nova situação, ainda que a desconheça. Para isso, faz um cálculo racional: a continuidade da situação atual é pior do que o risco de tentar mudar, mesmo com as incertezas inerentes às mudanças.

Eleição tem a ver ainda com utilitarismo. As sociedades ou extratos sociais mais vulneráveis cultural e politicamente tendem a votar por um cálculo de vantagens materiais imediatas. Os despossuídos, porque a sobrevivência é um desafio enfrentado a cada dia. A eleição é só mais um instrumento para auferir alguma vantagem. Mas essa também é a lógica de setores que não estão no limite das necessidades e que votam para obter uma vantagem corporativa ou grupal. Sem se importar com as posições do candidato para o conjunto do país e para o seu futuro.

Mas, para que se combinem razão e emoção na formação da convicção de quem vota, há um pré-condição. É preciso que as informações cheguem a ser conhecidas pelo eleitor. Por isso, é comum que candidatos que já governaram ou já disputaram eleições majoritárias partam com alguma vantagem. É o chamado 'recall'. As eleições de outubro próximo podem reproduzir as posições de quem já é conhecido. Mormente porque a campanha será curta. Mas, por outro lado, os que já são conhecidos podem ser mais facilmente associados à velha política hoje rejeitada pela maioria. Fica a incógnita sobre se haverá tempo e meios para que os novos ou portadores da renovação e reconstrução da política consigam capturar a razão e a emoção de um eleitorado ávido por mudanças. E se vão lograr convencê-lo a superar o medo, o preconceito e a opção instrumental. Em política todos e cada um têm o que dizer. Por isso, os modelitos manipulados por marqueteiros são tão falhos. Pretendem explicar com algumas poucas variáveis decisões que são complexas e influenciadas por muitos fatores. Compreender e explicar a política continua sendo algo complexo e sofisticado.

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