Homem cordial no Brasil atual

Publicado em: 30/06/2018 03:00 Atualizado em: 02/07/2018 08:45

O homem cordial, introduzido por Ribeiro Couto na literatura brasileira e sociologicamente analisado inicialmente por Sérgio Buarque de Holanda, retrata um protótipo de indivíduo que normalmente apresenta-se como gentil e disposto a ajudar, algumas vezes até demonstrando uma certa subserviência. Esse seria pessoa com personalidade construída numa sociedade rural de formação patriarcal, em que esse modo de se relacionar trazia como benefício não se indispor com ninguém. Segundo Sérgio Buarque, essas caraterísticas de aparente humildade na verdade refletiam uma postura alto-centrada que limitava as pessoas que via como relevantes entre os que se encontravam no seu entorno. Esses eram basicamente seus familiares. Essa característica, segundo Sérgio Buarque era o traço principal de personalidade da maior parte dos brasileiros. Obviamente, como em qualquer generalização do tipo, há exageros, pois as pessoas têm personalidades muito diferentes. Encontrar um traço cultural presente em subconjunto delas sempre leva a exclusão de muitos desse subconjunto. Vale lembrar que esse traço era mais fortemente presente em pessoas de renda baixa e principalmente aquelas com origens rurais. Vale também salientar que o cinismo implícito não era compartilhado por todos que possuíam tal característica. Muitos adequam-se mais à versão poética que tomava tal característica pelo seu valor de face. Desde longas datas que a elite brasileira na verdade possui a arrogância como traço mais marcante de sua personalidade. Mas isso não eliminava sua “cordialidade” como importante determinante nos relacionamentos sociais, desde que sua imagem de pessoa “importante” e “respeitável” fosse suficientemente respeitado. Caso contrário o bordão do “sabe com quem está falando” sempre aparecia como determinante importante de seu comportamento.

Essa característica de personalidade está se alterando muito nos últimos anos. A consolidação da democracia e o maior fluxo de informações está tornando as pessoas mais altivas e menos cordiais. Mesmo quando têm seus espaços reconhecidos, como normalmente demandado pelas elites, há mais desconfiança entre as pessoas. A “cordialidade” já não é um traço tão importante na personalidade de muitos, principalmente entre as novas gerações. O Brasileiro está se tornando mais intolerante com os outros e mais demandante de seus direitos. O trânsito se torna mais agressivo. As pessoas estão se tornando mais impacientes quando são atendidas, seja em bancos, supermercados ou qualquer outro local de atendimento em massa. Entretanto, elas cobram principalmente mais atenção e mais exclusividade, ao invés de maior justiça nos tratamentos. A impaciência muito comumente não vem acompanhada de respeito aos direitos dos outros. Nas elites esse traço é ainda mais marcante. Ou seja, a convivência no Brasil está ficando mais difícil.

Essas mudanças, contudo, não têm corrigido uma das consequências perversas da cordialidade, que é o não afrontamento direto de ideias de outrem, incluindo-se aí dimensionamento adequado de suas realizações. Ainda prevalece muito no Brasil a prática de se evitar críticas diretas ou mesmo expressão clara e direta de opiniões diferentes, além da exacerbação de realizações limitadas. Isso prejudica muito a eficiência na área acadêmica, e em ambientes de discussões de ideias, sejam eles partidos políticos seminários e conferências, ou qualquer outro. A consequência é que a demanda de tempo para desmontar ideias inadequadas ou mesmo aprofundá-las fica muito elevado, reduzindo a produtividade. Ou seja, a cordialidade tem como uma de suas características sociais positivas atenuar os conflitos, mas como subproduto ela reduz a eficácia construtiva da troca de ideias na sociedade.  Talvez devêssemos sacrificar esse excesso de valorização daquilo que não tem tanto valor assim, mas pudéssemos ganhar mais tolerância com ideias diferentes. Infelizmente nossas transformações no ser humano cordial está indo na direção oposta. Acentua-se a intolerância, mas ainda nos constrangemos em desmontar ideias superficiais ou mesmo errôneas ou irrelevantes.

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