Uma apresentação Nelseana

Publicado em: 27/06/2018 03:00 Atualizado em: 27/06/2018 08:54

Quando soube que o jornal Vanguarda, de Caruaru, ia publicar um Caderno Especial em homenagem ao centenário do meu pai, vibrei. Mas quando as jornalistas Lea Renata e Jaciara Fernandes, idealizadoras do tal caderno, me pediram para escrever, em nome da família, a apresentação desse encarte, tremi. Daí, fiquei pensando: o que escrever?

Dizer apenas como ele foi um excelente pai, sempre preocupado com a nossa educação, etc e tal, seria puro sentimentalismo familiar. Revelar que ele nasceu no dia 2 de junho de 1918 e partiu “numa tarde bem tristonha” de uma sexta-feira, 22 de outubro de 1993, era muito piegas. Informar que era filho de João Barbalho de Siqueira, o Mestre Joca da alfaiataria, e de Antonieta Bernardino de Siqueira, a doce Dona Toinha, ficava meramente biográfico, sem graça.

Pensei, então, em apresentá-lo, assinalando que ele escreveu mais de cem livros, dos quais sessenta e um já foram publicados e que ainda existem mais de cinquenta inéditos. Que seus livros são fonte de pesquisa para historiadores que desejam estudar a História de Pernambuco e, frequentemente, geram temas de dissertações de Mestrado e teses de Doutorado não apenas em universidades nacionais, mas também em instituições dos Estados Unidos e da França. Eita, vão dizer que estou exagerando.

Já sei, vou dizer que ele foi sócio fundador do Centro de Estudos de História Municipal, no Recife, que é ícone do Instituto Histórico de Caruaru, é patrono da Academia Recifense de Letras, da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras e da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, que dá nome à Escola de Referência em Ensino Médio de Caruaru (antigo Colégio Estadual), e ainda faz parte de Galerias Gonzagueanas existentes em diversas cidades do Nordeste. Agora vão pensar que estou mentindo.

Ou será melhor falar sobre os títulos, medalhas e homenagens que ele recebeu pelo conjunto da sua obra, sempre divulgando a história e a cultura nordestina? Que entre esses destaco a Medalha do Mérito Guararapes recebida em 1990; o Colar do Sesquicentenário de Caruaru, recebido, in memorian, em 2007, e a medalha do Centenário de Luiz Gonzaga, também in memorian, em 2012.  Melhor não, vai parecer que estou querendo esnobar.

Pensei ainda em destacar as suas composições musicais, feitas com diversos parceiros, gravadas por Luiz Gonzaga. Dizer, por exemplo, que Capital do Agreste foi o “hino” do Centenário de Caruaru, visto que, na época a cidade ainda não tinha Hino oficial. Que a Marcha da Petrobrás foi proibida na época da ditadura, por ser considerada subversiva, e que a Morte do Vaqueiro foi a canção que deu origem a Missa do Vaqueiro. Ôxe, vão dizer que estou me amostrando.

Depois esquentei a cabeça, pensando como iria apresentar o meu pai, lembrei de “Eu”, título de um prefácio que ele escreveu, em 1964, em um dos seus textos inéditos. “Nasci e criei-me em Caruaru / Fui moleque de rua às margens do Ipojuca / Pelas malocas do Bom Jesus /  Pela matança na Rua Dez / Pela bueira do trem / Nos banhos de bica nos brejos / Nas festas de fim de ano / Três filhos já tenho / De Caruaru todos os três / Político nunca jamais fui / Mas politizado apolítico sou / Nos jornais de Caruaru / Em todos eles escrevi / De Vanguarda ao Ditador / De Defesa ao Jornal do Agreste / De Ganga a Revista Aru / Ajuda a imprensa eu dei / Sou casado e vacinado / Curado sim, contra olhado / Mas apesar disso tudo / Inda vivo aperriado / Tenho trinta livros escritos / Não tenho um só publicado / Durante quarenta anos / Eu vivi em Caruaru / Um dia me abufelei / Resolvi sair prô sú / Fiquei mesmo no Recife / Que é perto de Caruaru”.

Pronto! Este é o meu pai: Nelson Barbalho!

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