Conflito Argélia vive onde de protestos sem precedentes contra presidente Manifestantes ocupam Argel e as principais cidades do país contra o quinto mandato de Abdelaziz Bouteflika, nos maiores protestos em duas décadas. Presidente troca diretor de campanha e deve anunciar hoje a própria candidatura

Por: Correio Braziliense - Correio Braziliense

Publicado em: 03/03/2019 11:09 Atualizado em: 03/03/2019 11:11

Na cidade de Wahran, manifestantes gritaram palavras de ordem e empunharam a bandeira do país, durante ato realizado na última sexta-feira (foto: AFP) (Na cidade de Wahran, manifestantes gritaram palavras de ordem e empunharam a bandeira do país, durante ato realizado na última sexta-feira (foto: AFP))
Na cidade de Wahran, manifestantes gritaram palavras de ordem e empunharam a bandeira do país, durante ato realizado na última sexta-feira (foto: AFP)
Mergulhada nos maiores protestos em duas décadas, desde a ascensão de Abdelaziz Bouteflika ao poder, em 27 de abril de 1999, a Argélia se uniu contra um eventual quinto mandato do presidente. Horas depois das manifestações de sexta-feira, que deixaram 183 feridos, o chefe de Estado substituiu o ex-premiê Abdelmalek Sellal, coordenador das três últimas campanhas presidenciais (2004, 2009 e 2014),  pelo atual ministro dos Transportes, Abdelghani Zaalane. No 82º aniversário de Bouteflika, ontem, o clima era de suspense ante provável confirmação da candidatura do líder. De acordo com a agência de notícias France-Presse, Bouteflika está hospitalizado na Suíça, há seis dias, para “exames médicos de rotina”. No entanto, rumores indicariam a gravidade de seu estado de saúde (leia nesta página).

A troca no comando da campanha eleitoral ocorreu dois dias depois do vazamento de um áudio em que Sellal e o executivo Ali Haddad, amigo de um dos irmãos do presidente, conversavam sobre a convulsão social e sobre o temor de serem mortos. Morador de Wahran, a 426km de Argel, o consultor financeiro Sebbah Sofiane, 42 anos, afirmou ao Correio que Bouteflika “matou a democracia argelina”. “Ele mudou a Constituição para que se candidatasse novamente. O presidente morrerá em breve, todos sabemos disso. Depois de seu falecimento, o líder da Câmara assumirá interinamente e convocará eleições. Os irmãos de Bouteflika querem obter benefícios desse processo.” Segundo Sofiane, alguns argelinos creem que ele está incapacitado de governar, enquanto acreditam no oposto e veem uma estratégia para proteger e perpetuar o próprio clã no poder.

Moradora de Argel, a produtora audiovisual Hania Chabane, 25, participou de todas as manifestações registradas na capital desde 22 de fevereiro. Chegou a ser detida por cinco horas. “A primeira razão pela qual saí às ruas foi para desaprovar e condenar a candidatura do atual presidente, pois ele está inválido e sequer consegue se mexer. Também quis denunciar todo o sistema político, um dos mais corruptos do planeta”, explicou. “Estamos lutando contra a nossa ruína, queremos uma nação melhor. Lutamos por uma segunda República.”  Os protestos de sexta-feira mobilizaram dezenas de milhares de pessoas em todo o país e registraram a morte de Hassan Benkhedda, filho do ex-primeiro-ministro Benyoucef Benkhedda, ainda em circunstâncias não esclarecidas.
Democracia em xeque

Em entrevista ao Correio, John Entelis — professor de ciência política da Fordham University (em Nova York) — explicou que os protestos estão relacionados à ausência de democracia política. “O poder está nas mãos de um complexo militar-industrial que tem controlado as altas instâncias políticas argelinas desde o golpe militar de 19 de junho de 1965”, afirmou. “Essa autoridade centrada no Estado impediu o crescimento total da sociedade e da economia, o que afetou as possibilidades de emprego da geração mais jovem, onde 70% da população tem menos de 30 anos”, acrescentou o estudioso, especialista em política argelina e autor de Algeria: The revolution institutionalized (“Argélia: A revolução institucionalizada”). Entelis acredita que Bouteflika será forçado a renunciar, caso os protestos continuem. “Ele vencerá as eleições, mas deixará o Estado e a sociedade em uma posição extremamente precária, muito provavelmente com mais agitação.”


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