conflito ONU acusa Israel de possíveis crimes contra a humanidade em Gaza

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 28/02/2019 11:01 Atualizado em:

Presidente da comissão investigadora, Santiago Canton. Foto: AFP
Presidente da comissão investigadora, Santiago Canton. Foto: AFP
Uma comissão da ONU afirmou nesta quinta-feira que a resposta de Israel às manifestações em Gaza em 2018 "pode constituir crimes de guerra ou crimes contra a humanidade", e observa que franco-atiradores atacaram civis, incluindo crianças.

Em um relatóiro elaborado por investigadores do Conselho de Direitos Humanos da ONU - que não receberam autorização de Israel para ir ao local dos fatos -, foi analisada a violência ocorrida durante os protestos semanais realizados desde o final de março de 2018 até o final de dezembro no território palestino.

"Soldados israelenses cometeram violações contra os direitos humanos e o direito internacional humanitário, alguns dos quais podem constituir crimes de guerra ou crimes contra a humanidade e devem ser imediatamente investigados por Israel", afirmou presidente da comissão investigadora, Santiago Cantón.

Segundo a comissão da ONU, "mais de 6 mil manifestantes desarmados foram atingidos por atiradores de elite militares, semana após semana, durante as manifestações".

Os investigadores indicaram que "encontraram motivos razoáveis para acreditar que atiradores de elite israelenses atiraram em jornalistas, profissionais de saúde, crianças e pessoas com deficiência, sabendo que eles eram claramente reconhecíveis como tal". "Não há razão para matar ou ferir jornalistas, médicos e pessoas que não representam uma ameaça iminente de morte [...] para as pessoas à sua volta. Visar a crianças e pessoas com deficiências é particularmente alarmante ", declarou outra pesquisadora da ONU, Sara Hossain.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU estabeleceu esta comissão em maio de 2018 para "investigar as violações e supostos maus-tratos [...] no contexto dos ataques militares realizados durante as grandes manifestações civis que começaram em 30 de março de 2018 em Gaza".

A partir dessa data, dezenas de milhares de palestinos da Faixa de Gaza, encrave localizado entre Israel, Egito e o Mediterrâneo, se reuniam todas as semanas perto da fronteira na chamada "Marcha de Retorno", que reivindicava o direito dos palestinos de retornar às terras de onde foram expulsos ou de onde fugiram com a criação de Israel em 1948.

Israel repetidamente proclamou que esse protesto em massa foi orquestrado pelo Hamas, movimento islamita que comanda a Faixa de Gaza e com o qual já travou três guerras desde 2008.

Mas para os investigadores da ONU, "as manifestações eram de natureza civil, com objetivos políticos claramente declarados e,apesar de alguns atos de violência significativa, a comissão considerou que as manifestações não constituíam campanhas militares ou de combate".

Falso e parcial
Em suas conclusões, a comissão também recomenda às autoridades da Faixa de Gaza que parem com o uso de "balões equipados com dispositivos incendiários", sendo o envio desses artefatos para Israel um dos aspectos da vasta mobilização palestina.

A comissão, com quem Israel não cooperou, conduziu 325 entrevistas com vítimas, testemunhas e fontes e coletou mais de 8.000 documentos. Ela também teve acesso a material audiovisual, incluindo gravações feitas por drones.

Pelo menos 251 palestinos foram mortos por tiros israelenses nesses confrontos, a grande maioria ao longo da fronteira, e os demais morreram em ataques israelenses em retaliação por atos hostis por parte do encrave. Dois soldados israelenses morreram no mesmo período.

Em uma reação imediata, Israel rejeitou o relatório da comissão da ONU, atribuindo ao movimento palestino Hamas a responsabilidade pelas violências e o número de vítimas nas manifestações. "O teatro do absurdo praticado no Conselho de Direitos Humanos [da ONU] produz um relatório hostil, falso e parcial contra Israel", afirmou o ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, em um comunicado. 

Em 18 de março, um relatório mais detalhado será apresentado ao Conselho de Direitos Humanos, um órgão da ONU que as autoridades israelenses geralmente acusam de preconceito contra Israel.


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