conflito Armas e leite em pó, a bagagem incomum das jihadistas na Síria

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 27/02/2019 15:53 Atualizado em:

Foto: SHAH MARAI/AFP
Foto: SHAH MARAI/AFP
Armas, notebooks, moedas de ouro e leite em pó: as jihadistas que abandonam o último reduto do Estado Islâmico na Síria levam com elas uma bagagem bastante incomum.

As mulheres chegam em grupos no posto de controle instalado pelas Forças Democráticas da Síria (FDS), a 20 quilômetros da última fortaleza do grupo Estado Islâmico (ES), na aldeia de Baghuz, perto da fronteira com o Iraque.

Cobertas da cabeça aos pés, essas mulheres escondem suas armas sob as roupas ou em suas sacolas, entre os poucos brinquedos de seus filhos ", disse Nawal Kobani, de 18 anos e combatente da SDS.

"Os homens em geral não usam nada, essas coisas só são encontradas no (poder das) mulheres", disse ele à AFP em um posto de controle nas FDS.

Na segunda-feira, as FDS esvaziaram 46 caminhões cheios de pessoas do último trduto, onde os jihadistas do "califado" resistem.

As FDS afirmam que querem retirar os civis das áreas controladas pelo EI antes do avanço final contra os jihadistas.

'Nem fotos nem memórias'
Este é último grupo de evacuados a chegar ao posto de controle das FDS no entardecer de segunda-feira, todo coberto de poeira após a viagem de Baghuz.

Vestidas com roupas pretas e escuras, um grupo de mulheres se reúne em um círculo no piso rochoso e árido, esperando que lhes ofereçam alguma comida.

Com uma pequena bolsa nas mãos, um menino perambula pelo posto de controle em busca de sua mãe, Wardah.

Mais atrás, uma mulher atende seu filho, outra prepara uma garrafa de leite para seu bebê recém-nascido, e uma terceira apenas está sentada, olhando silenciosamente para vazio.

Abeer Mohamad, uma refugiada síria de 35 anos, nascida na província de Aleppo, abre uma pequena bolsa e retira uma caixa suja de plástico que contém algum leite em pó.

"Não trouxe nada comigo exceto algumas roupas e um pouco de leite para o mais novo", disse, sentada com seus três filhos.

"Também não deixamos nada, na realidade", acrescenta com seu rosto coberto inteiramente por um véu.

É precisamente o uso generalizado dos véus pretos que torna difícil diferenciar uma mulher de outra no acampamento.

Outra mulher síria, que pediu para não ser identificada, disse que não carregava "nem fotos, nem memórias, nem nada". "Não trazemos nada mais do que algumas roupas", explica.

Rendição
Cerca de 50.000 pessoas - na maioria mulheres e crianças - saíram da zona de Baghuz desde o início de dezembro, de acordo com a ONG com sede em Londres Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

Os primeiros grupos a chegar carregavam grandes malas ao sair do reduto do EI, e muitas das mulheres usavam braceletes de ouro nos braços.

No entanto, os últimos grupos a chegar não carregam mais do que pequenas bolsas.

Umm Mohamad, de 45 anos e também de Aleppo, está sentada junto a um par de muletas.

Ela foi ferida há seis meses quando uma granada explodiu junto à sua casa, em Al Shaafa, um dos bastiões dos jihadistas recuperados pelas FDS.

"Hoje, carregamos as roupas que pudemos reunir e as trouxemos com a gente", disse.

Os homens permanecem em silêncio.

Ao contrário das mulheres, que fazem incontáveis perguntas ao chegar ao posto das FDS ou gritam pedindo comida, os homens esperam silenciosamente nas fileirs, ou se sentam calados no piso.

Esses homens não falam entre si nem fazem perguntas.

"É impossível para os homens fazer qualquer pergunta. Eles já se renderam", disse Mazlum, um combatente das FDS de 29 anos.


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