crise na venezuela Jornalistas de emissoras hispânicas dos EUA denunciam perseguição de Maduro

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 27/02/2019 09:46 Atualizado em:

Foto: Yuri CORTEZ / AFP
Foto: Yuri CORTEZ / AFP
Jornalistas das duas maiores emissoras hispânicas nos Estados Unidos, Univisión e Telemundo, denunciaram terem sido vítimas de "detenção" e o "sequestro" no exercício de sua profissão em Caracas, o que o governo de Donald Trump considerou nesta terça-feira (26) algo próprio de "um tirano que se agarra ao poder".

Referindo-se particularmente ao caso do apresentador da Univisión, Jorge Ramos, o governo da Venezuela disse que não se prestava a "shows baratos".

O jornalista Jorge Ramos, estrela mexicano-americano e sua equipe da Univisión, uma das principais emissoras hispânicas dos Estados Unidos, chegaram nesta terça a Miami, depois de terem sido retidos durante mais de duas horas na sede da Presidência da Venezuela, quando faziam uma entrevista com o presidente Nicolás Maduro. "Estivemos detidos no Palácio de Miraflores", disse Ramos a jornalistas que o aguardavam em Miami. "Imaginem o que não farão com jornalistas venezuelanos".

O Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa da Venezuela (SNTP) lembrou no Twitter, após a repercussão do caso da retenção de Ramos, que "são pelo menos 30 as detenções de jornalistas e trabalhadores de meios registrados nos dois primeiros meses de 2019".

Na noite de segunda-feira, Ramos e outros cinco jornalistas da Univisión foram retidos quando, segundo sua versão, Maduro se irritou porque mostraram a ele um vídeo em que jovens aparecem comendo lixo.

Neste momento, o governante teria se levantado e deixado a entrevista. Os comunicadores foram retidos e seu equipamento, confiscado.

"Eu perguntara se ele era um presidente ou um ditador, porque milhões de venezuelanos não o consideram um presidente legítimo, sobre as acusações de Juan Guaidó (líder opositor reconhecido como presidente encarregado por 50 países) de que ele era um usurpador do poder", disse Ramos. "Ficamos detidos, não há outra palavra, por mais de duas horas no palácio de Miraflores", completou o jornalista. 

Sequestro durante cobertura
Depois de mais de duas horas, os jornalistas foram enviados ao seu hotel, mas denunciaram que os funcionários do governo tinham apreendido seu equipamento e seus celulares.

"Nunca pensei que Maduro fosse primeiro se levantar de uma entrevista e depois nos deter por mais de duas horas e pior, roubar nossa entrevista", disse Ramos em Miami. "Se Maduro não é tão covarde, se tem coragem de dar a cara, que mostre a entrevista completa, ninguém vai editá-la", prosseguiu.

Nesta terça-feira, um jornalista venezuelano da Telemundo, Daniel Garrido, cobria a notícia da expulsão de Jorge Ramos quando, segundo sua emissora, "foi sequestrado".

"Um grupo de indivíduos armados e sem identificação o forçou a embarcar em um veículo e cobriu sua cabeça com um capuz. Após interrogatório por seis horas e tira seu equipamento de trabalho, os sequestradores o libertaram sem nenhuma explicação e sem devolver seu equipamento", denunciou a Telemundo em um comunicado. "Não é a primeira vez que Daniel foi intimidado no exercício de seu trabalho jornalístico. Em ocasiões anteriores, foi vítima de assédio físico e roubaram todo o seu equipamento", prosseguiu.

O vice-presidente americano, Mike Pence, postou no Twitter, ao publicar uma história sobre o caso Univisión, que "deter jornalistas" é um dos "atos desesperados de um tirano que se agarra ao poder por meio da violência e da intimidação". O governo venezuelano, por sua vez, criticou a atitude de Ramos durante a entrevista.

Pelo Palácio de "Miraflores passaram centenas de jornalistas que receberam o tratamento decente que de forma habitual damos a quem vêm cumprir o trabalho jornalístico, e publicaram o resultado desse trabalho. Não nos prestamos a shows baratos", escreveu no Twitter o ministro da Comunicação, Jorge Rodríguez.

Maduro quer ser "o Idi Amin da América Latina", disse um funcionário americano de alto nível em alusão ao tirano ugandense dos anos 1970, com quem a Casa Branca já comparou ao chefe de Estado venezuelano em um vídeo publicado no Twitter. "Quer tentar mostrar um tipo de poder e o está fazendo com estes 'jogos' que realizou com Jorge Ramos", afirmou a fonte durante audioconferência realizada sob a condição de ter sua identidade preservada.

Mais cedo nesta terça-feira, 16 organizações de defesa da liberdade de expressão, entre elas a Human Rights Watch, a Fundação García Márquez, Repórteres sem Fronteiras e a Sociedade Interamericana de Imprensa, condenaram o episódio com o jornalista da Univisión.

"Esta detenção constitui uma violação grave à liberdade de imprensa e afera o direito à liberdade de informação no desenrolar dos fatos que são de interesse global", escreveram em um comunicado conjunto.

Estes atos "confirmam um padrão de desprezo aos valores democráticos por parte de Nicolás Maduro, em que a restrição à liberdade dos jornalistas é utilizada como mecanismo de chantagem no âmbito da crise que o país atravessa", prossegue o texto.


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