Editorial Sem perdão para a omissão

Publicado em: 23/02/2019 07:25 Atualizado em:


Desde a última quinta-feira, o Vaticano vem discutindo um dos temas mais caros à igreja católica: o abuso sexual de crianças. A expectativa sobre o que será decidido pelo papa Francisco é enorme, pois não se aceita mais que crime tão hediondo continue a ser cometido sob o manto da impunidade. A cúpula da igreja precisa dar uma resposta dura à questão da pedofilia, sob o risco de ver seu rebanho minguar por total descrédito.

É verdade que, desde o início de seu pontificado, Francisco tem atuado fortemente para combater essa praga que mancha de vergonha o catolicismo. Mas há uma resistência enorme ao seu trabalho. Os conservadores que dominam parte importante da igreja acreditam que a solução para padres criminosos continua sendo escondê-los em paróquias nos confins do país ou lhes dando confortáveis aposentadorias. Isso é inaceitável.

Logo em seu primeiro discurso, na abertura do encontro intitulado “A proteção de menores na igreja”, Francisco foi enfático: “O povo de Deus nos olha e espera não condenações óbvias e simples, mas medidas concretas e eficazes”. É preciso entender que os danos provocados pela igreja em suas vítimas são enormes, praticamente irreversíveis. Portanto, que os culpados paguem pelo que cometeram. Os inimigos não podem continuar transitando livremente pela igreja como se nada estivesse acontecendo.

Ouvir os relatos de vítimas de abusos sexuais cometidos por padres — e por quem quer que seja — é um martírio. Não por acaso, Francisco exibiu cinco depoimentos na abertura do encontro com quase 200 clérigos. O papa disse que estendia a mão a todos que foram violentados na sua inocência e assegurou que a escória que se apresenta como representante de Deus será varrida do mapa. Resta saber se realmente tal promessa será cumprida.
Alguns avanços foram vistos nos últimos dias. Na véspera do encontro histórico no Vaticano, o papa excomungou o padre goiano Jean Rogers Rodrigo de Sousa, conhecido como José Maria, 45 anos. Ele é suspeito de abusar sexualmente de pelo menos 11 ex-freiras e ex-noviças. Como é praxe na igreja, depois que as denúncias se tornaram públicas, o sacerdote passou os últimos anos pulando de diocese em diocese. Atualmente, está fora do Brasil, em Ciudad del Este, no Paraguai.

Não há dúvidas de que esses casos de excomunhão serão cada vez mais frequentes. Os católicos deverão conviver com essa dura realidade, mas, certamente, terão a fé reforçada pela punição efetiva daqueles que usam o nome de Deus para cometer crimes. Os tempos de impunidade, de se manter os olhos fechados para tamanhas atrocidades, ficaram para trás. A igreja católica precisa entender que sua sobrevivência depende da verdade com que agirá. Não haverá perdão para a omissão.
 




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