talibãs Rússia tenta tirar proveito da retirada americana do Afeganistão

Por: AE

Publicado em: 06/02/2019 16:19 Atualizado em:

Foto: Javed Tanveer / AFP
Foto: Javed Tanveer / AFP
Antigos inimigos da União Soviética, os talibãs são bem recebidos pela Rússia, que busca tirar proveito da retirada em breve dos Estados Unidos para aumentar sua influência no Afeganistão.

Embora o movimento esteja oficialmente proibido no território russo, os talibãs foram bem recebidos em um luxuoso hotel da capital russa, onde entre terça e esta quarta-feira (6) são realizadas negociações inéditas com os dignatários de alto escalão da oposição ao governo afegão.

O chanceler russo, Sergei Lavrov, insistiu que a reunião foi uma iniciativa privada, organizada pela "diáspora afegã na Rússia", um "grupo de amizade que se inquieta por sua pátria".

A Rússia, disse, é responsável apenas pela "logística e emissão de vistos" para os participantes desta reunião, realizada sem a presença do presidente afegão, Ashraf Ghani, nem representantes do governo atual.

O encontro de terça e desta quarta "é um projeto do Kremlin", afirma o especialista Andrei Serenko, do Centro de Estudos Contemporâneos Afegãos de Moscou.

"A partida dos americanos rompe todo o sistema de estabilidade regional. Moscou espera ter um papel (...) dado que já não existe outro ator na região", explica, acrescentando que a Rússia não planeja "destinar dinheiro" ao Afeganistão ou se converter em um segundo Estados Unidos.

Moscou pede há anos um diálogo "direto" e "construtivo" entre as autoridades afegãs e os talibãs.

Em novembro, as autoridades russas organizaram uma reunião em Moscou que incluiu uma delegação dos talibãs e a participação de um organismo governamental afegão, mas terminou sem avanços.

Segurança na Ásia Central
"Um maior envolvimento de Moscou surpreendeu principalmente devido à história violenta da Rússia no Afeganistão durante a ocupação do país, em 1979 e 1989", indica uma análise do centro Soufan.

Para a Rússia, trata-se, primeiro, de garantir a segurança das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, que considera para de sua região de influência, em particular na fronteira porosa de 1.300 km entre Afeganistão e Tajiquistão.

Moscou se inquieta com a consolidação do grupo Estado Islâmico (EI) no Afeganistão e queria que os talibãs e as autoridades de Cabul se unam para combatê-lo. Autoridades russas expressaram temer intrusões dos extremistas nos países vizinhos e, de lá, para a Rússia.

Em 2015, um responsável russo de alto escalão afirmou que os objetivos dos talibãs "coincidem" com os de Moscou em termos de luta contra o EI.

"Os talibãs, que só respeitam a força, falam agora a mesma língua que a Rússia", assinala Serenko, destacando que uma solução no Afeganistão permitiria a Moscou, em meio a tensões com o Ocidente, deixar evidente o fracasso americano no país.

"A ironia disso é que a Rússia também enfrenta hoje os Estados Unidos no Afeganistão", indica o analista independente Arkadi Dubnov.

Por sua experiência desastrosa no Afeganistão durante a época soviética, Moscou não quer rivalizar com Washington neste complexo tema, mas criar suas próprias vias de influência antes das eleições de 20 de julho, nas quais aposta na vitória de Mohamad Hanif Atmar, explica Serenko.

Mas a estratégia russa pode ser perigosa, observa o analista americano Michael Kugelman: "ao incitar a oposição afegã a falar com os talibãs, Moscou ameaça fissurar um processo de paz nascente, mas frágil, e provocar uma nova crise dentro do governo afegão, onde já existem profundas divisões".


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