Entrevista 'Ninguém pode deter mudança', diz Juan Guaidó, atual presidente venezuelano

Por: Rodrigo Craveiro - Especial para o EM

Publicado em: 29/01/2019 08:09 Atualizado em:

Guaidó se disse respaldado pelo artigo 233 da Constituição, negou temer pela própria segurança e detalhou os próximos planos de seu governo, reconhecido por 50 países. Foto: Federico Parra/AFP
Guaidó se disse respaldado pelo artigo 233 da Constituição, negou temer pela própria segurança e detalhou os próximos planos de seu governo, reconhecido por 50 países. Foto: Federico Parra/AFP
Foram vários dias de insistência até que as respostas foram enviadas pelo WhatsApp. Minutos depois, um contato pelo celular. Juan Guaidó, 35 anos, agradeceu o interesse da reportagem e a preocupação do povo brasileiro. Ao fundo, gritos e palmas. O engenheiro que ajudou a fundar o partido Voluntad Popular se elegeu deputado da Assembleia Nacional em 2016, foi nomeado líder do parlamento, em 5 de janeiro passado, e tornou-se inimigo número 1 do presidente Nicolás Maduro. Dezoito dias depois, prestou juramento como presidente encarregado da Venezuela, ante milhares de pessoas reunidas na Plaza Bolívar, em Chacao, região metropolitana de Caracas.
 
Em entrevista exclusiva ao Correio, Guaidó se disse respaldado pelo artigo 233 da Constituição, negou temer pela própria segurança e detalhou os próximos planos de seu governo, reconhecido por 50 países — incluindo Estados Unidos, Brasil, Austrália e Canadá. O presidente assegurou que o regime de Maduro está “podre por dentro”. Ele também classificou de “séria e responsável” a “verdadeira solidariedade” demonstrada pelo governo de Jair Bolsonaro em relação à crise na Venezuela. Apesar de reconhecer a transição no país como uma mudança que não pode ser detida, Guaidó afirmou que jamais abandonará a possibilidade de diálogo para o fim da crise sem precedentes no país. “É preciso descartar essa concepção de que o diálogo representa traição”, defendeu.

Em que momento o senhor decidiu prestar juramento como presidente encarregado da Venezuela?
Não fui eu quem decidiu. Isso está contemplado no artigo 233 da Constituição da República Bolivariana da Venezuela, com uma rota política muito clara. Em primeiro lugar, o fim da usurpação. Em segundo lugar, um governo de transição. Em terceiro, eleições livres. Eu simplesmente estou cumprindo com o mandato da Constituição e com o povo da Venezuela, no qual reside a soberania. O juramento — e precisamos ser muito cuidadosos com os termos, pois foi isso, um juramento, não uma autoproclamação — se fez ante os deputados da Assembleia Nacional e ante milhares de venezuelanos.

O senhor teme por sua segurança ou por sua integridade física?
Não. Estou muito confiante, mas tomo precauções necessárias para minha pessoa e para a minha família. Todos os dias, agradeço a Deus por ter o imenso apoio de toda a minha família. É muito reconfortante e uma motivação imensa para seguir em frente com essa luta, que também é por eles.

Maduro tem adotado uma posição desafiadora e convocado o povo ao combate. Qual é a possibilidade de o regime desmoronar, se as Forças Armadas ainda o apoiam?
Nada, nem ninguém, pode deter a mudança. O povo decidiu mudar. Isso de ir a “combate” ficará apenas na súplica desse senhor, pois os venezuelanos sabem que Maduro não protege ninguém. Além disso, por aqui não se planeja uma guerra para convocar um debate. Em relação à Força Armada Nacional, eu peço aos militares que acatem a Constituição. Não estou pedindo que apoiem um partido político, apenas que cumpram com a Carta Magna. Na Assembleia Nacional, temos aprovado uma Lei de Anistia para acolher os militares. O enorme descontentamento que existe entre os comandos médios e baixos da Força Armada Nacional com as condições econômicas do país, da própria instituição, e por terem apoiado o golpe de Estado consumado por Maduro é público e notório.

Quais são seus planos mais imediatos para uma nação com problemas socioeconômicos tão graves?
O imediato é atender o povo venezuelano ante essa crise sem precedentes. Temos trabalhado nisso. Por exemplo, autorizamos a entrada de ajuda humanitária. Há um plano para o país, o qual está pronto para ser executado. Não estamos aqui para improvisar. Não há espaço para improvisação, muito menos para erros. Não temos tempo a perder.

Como o senhor analisa o protagonismo do Brasil na crise venezuelana?
A posição do presidente (Jair) Bolsonaro tem sido de solidariedade, além de responsável e séria. O Brasil, como o restante dos outros países vizinhos e irmãos, demonstrou aos venezuelanos o que é a verdadeira solidariedade entre as nações. Também sofreu com as consequências da destruição padecida pela Venezuela. Estou seguro de que, em breve, voltaremos a ser bom vizinho.

Há risco de uma guerra civil, caso Maduro não renuncie?
Creio que ele não quer deixar o poder. No entanto, isso é algo que não depende de sua vontade, mas dos fatos. Não tem porque haver uma guerra civil. Estamos fazendo uma proposta apegada à Constituição, que nos leve à transição, a qual passe pelo fim da usurpação, pelo governo de transição e por eleições livres. A guerra, assim a guerra econômica, somente existe na cabeça dos responsáveis pela pior crise da história da Venezuela.

Quais os problemas mais graves na Venezuela e que soluções vislumbra a curto prazo?
Todos os problemas que temos são graves. Não há um que se sobreponha ao outro. Estamos numa situação tão ruim, afundados por culpa da corrupção, da ineficiência e da incapacidade de um grupinho que tem se ostentado no poder durante os últimos 20 anos. A curto prazo, a saída desses problemas é receber a ajuda humanitária — a ajuda internacional —, criar condições jurídicas que sejam uma garantia para o investimento estrangeiro e, assim, iniciar a reconstrução da Venezuela. As soluções mágicas não existem e, sobre isso, devemos ser claros. Eles levaram 20 anos para acabar com a Venezuela. Assim, a reconstrução não pode ser de um dia para o outro. No entanto, com os trabalhadores que nós, venezuelanos, somos, com a vontade, a responsabilidade, o profissionalismo e a entrega que nos caracterizam, vamos ter sucesso sem tardar muito.

Maduro defendeu um acordo acional, um amplo diálogo ara resolver a crise. Há espaço para isso?
O diálogo é uma condição sine qua non para resolver qualquer conflito ou diferença. Na Venezuela, é preciso deixarmos de demonizá-lo. É necesário descartar a concepção de que o diálogo representa traição. Nós nunca descartaremos essa possibilidade, por uma questão de responsabilidade.

Como a comunidade nternacional pode sufocar  regime de Maduro?
Como tem feito: impondo sanções a seus funcionários; sanções que não são contra o povo da Venezuela, como o regime tem vendido. Mas contra os funcionários corruptos, que desmantelaram o país para encher suas contas bancárias pessoais. A outra forma é sermos firmes em seu apoio para a luta pela liberdade da Venezuela. Unindo-se às demandas do povo venezuelano: fim da usurpação, governo de transição e eleições livres. Tem sido importantíssimo o apoio da comunidade internacional. Nós, venezuelanos, temos uma dívida de gratidão muito grande para com nossos irmãos latino-americanos, com o governo e o Congresso dos EUA, com Canadá e as democracias europeias. Seu respaldo tem sido fundamental nessa luta.


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