condenação Battisti cumprirá a prisão perpétua em presídio de segurança máxima

Por: Renato Souza - Correio Braziliense

Publicado em: 15/01/2019 07:56 Atualizado em: 15/01/2019 07:58

Foto: Alberto Pizzoli/AFP
Foto: Alberto Pizzoli/AFP
A extradição do terrorista Cesare Battisti, 64 anos, para a Itália, após ser preso na Bolívia, marca o fim de uma saga de 37 anos, que mobilizou cinco países e um esforço pessoal dele para fugir da condenação à prisão perpétua. Depois de viver mais de uma década no Brasil, e ver sua situação mobilizar presidentes da República e chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF), o italiano deve passar o resto de seus dias recolhido na prisão de Oristano, presídio de segurança máxima na região da Sardenha. Por questão de logística e segurança, o avião que o levou ao país europeu não fez escala, o que era desejado pelo governo brasileiro.

Battisti foi preso pela polícia da Bolívia enquanto caminhava pelas ruas de Santa Cruz de la Sierra. Apesar de não ter se identificado inicialmente, ele estava com um documento brasileiro, que foi recolhido na delegacia da cidade. Em comunicado, o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, afirmou que o voo direto para a Europa, sem que parasse no Brasil, ocorreu por conta da logística do transporte. “Nosso objetivo foi fazer o voo mais rápido e seguro para a Itália”, disse.

Ele, no entanto, agradeceu ao presidente Jair Bolsonaro pelos “esforços” em promover a extradição. “A mudança de governo no Brasil foi determinante para esse resultado. Eu falei com Bolsonaro e agradeci muito”, completou. A prisão movimentou a vida política e ocupou boa parte dos noticiários da Itália, além de ser manchete de todos os jornais de grande circulação da região.

A troca de afagos não parou por aí. Pelo Twitter, o ministro do Interior, Matteo Salvini, disse que pretende se encontrar com Bolsonaro para discutir uma aproximação entre os dois países. “Reiterei o agradecimento por nos permitir encerrar a questão Battisti e estamos empenhados em nos reunir em breve para fortalecer as ligações entre os nossos povos e os nossos governos, bem como a nossa amizade pessoal”, escreveu.

Bolsonaro agradeceu usando a mesma rede social. Os dois também conversaram por telefone. Em nota, o Planalto informou que, durante a ligação, Matteo disse que “sem a intervenção do presidente Bolsonaro a extradição não teria se concretizado e que o presidente brasileiro tem excelente imagem junto ao povo italiano”.

Battisti, que integrou a organização Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), é acusado de quatro homicídios na década de 1970. Na época, a Itália vivia os chamados “Anos de chumbo”,  nos quais o governo sofria ataques praticados por grupos de esquerda e de direita. Ele chegou a ser preso, mas fugiu para a França em 1981. Em seguida foi para o México, voltou a Paris e só veio ao Brasil em 2004, quando a França aprovou sua extradição para o país de origem.

Briga na Justiça
Em 2009, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por cinco votos a quatro, autorizar a extradição do italiano, a Corte entendeu que, para que isso ocorresse, a palavra final deveria ser do presidente da República. Nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, Battisti pôde se manter em território nacional.

O caso, no entanto, tomou um novo rumo em dezembro do ano passado, quando o ministro Luiz Fux, do STF, mandou prender o terrorista. O magistrado revisou o processo, após suspeitas de que Battisti cometeu crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Ele é acusado de tentar cruzar a fronteira com a Bolívia portando US$ 6 mil e 1,3 mil euros.

A partir daí, o italiano passou a ser foragido. O então presidente Michel Temer assinou a autorização para a extradição. 

O STF decidiu que, se fosse extraditado, Battisti teria de cumprir pena de acordo com a lei brasileira. Por conta disso, ele ficaria detido por, no máximo, 30 anos, e teria direito à progressão de regime. Por não ter passado pelo território nacional antes de ir para a prisão, ele não terá esse benefício e deve ficar preso até o fim da vida.

Sem fugas
Battisti iria, inicialmente, à prisão de Rebibbia, na zona urbana de Roma, mas, por questões de segurança, o governo do país decidiu levá-lo para Oristano. Segundo informações do jornal Corriere Della Sera, o presídio foi aberto em 2012 e abriga 266 detentos, quase todos condenados por crimes comuns. Do total, 85% estão submetidos ao regime de segurança máxima. Cada cela tem um banheiro e uma pequena cozinha. Nunca houve casos de fuga. Conforme o regulamento da prisão perpétua, Battisti deve permanecer em regime de isolamento por seis meses.

Avião da PF
Após a prisão, o governo brasileiro deslocou um avião da Polícia Federal à Bolívia para trazer Battisti ao Brasil e, em seguida, extraditá-lo para a Itália, conforme promessa de campanha do presidente Jair Bolsonaro. O governo italiano, no entanto, já havia decidido levar Battisti diretamente ao país. Em uma nota conjunta divulgada no início da noite de ontem, os ministérios das Relações Exteriores e da Justiça brasileiros afirmaram que o importante era que o italiano respondesse por seus crimes.

As vítimas
A condenação de Battisti na Itália ocorreu pelo papel direto ou indireto dele em quatro assassinatos

Pier Luigi Torregiani, o joalheiro
» Em 16 de fevereiro de 1979, um comando dos PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), pequeno grupo de extrema-esquerda considerado como “terrorista” por Roma, atirou em Pier Luigi Torregiani em frente à joalheria dele em Milão e sob o olhar do filho, Alberto, de 15 anos. Gravemente ferido, Alberto ficou tetraplégico. “Agora, as vítimas vão poder descansar em paz”, declarou, ao ser informado da extradição. Battisti foi condenado por ter sido o instigador desse crime, decidido porque o joalheiro havia se defendido durante uma tentativa de assalto.

Lino Sabbadin, o açougueiro
» Também em 16 de fevereiro de 1979, Cesare Battisti encobriu cúmplices que atacaram o açougue de Lino Sabbadin, de 45 anos, em Mestre, perto de Veneza, pelas mesmas razões: o açougueiro havia ferido fatalmente seu agressor durante uma tentativa de roubo em dezembro de 1978. Ele também era um militante de extrema-direita. “Esperei por esse dia por 40 anos”, declarou à imprensa o filho de Sabbadin, Adriano, que tinha 17 anos na data da morte do pai. Por esse assassinato, Battisti também foi condenado por cumplicidade.

Antonio Santoro, o carcereiro
» Em 6 de junho de 1978, Cesare Battisti matou, em Udine (nordeste), Antonio Santoro, de 51 anos, um oficial do corpo de carcereiros, que comandava a prisão da cidade e era acusado de maus-tratos contra os detentos.

Andrea Campagna, motorista da polícia
» Em 19 de abril de 1979, Cesare Battisti assassinou, em Milão, Andrea Campagna, de 24 anos, motorista do Digos, o serviço secreto italiano responsável pela luta contra o terrorismo e a extrema-direita. “Andrea era um motorista, não um investigador (...). Eles chegaram por trás e atiraram uma bala na sua cabeça”, contou, ao jornal La Repubblica, o irmão dele Maurizio. Battisti foi condenado por ter disparado o tiro fatal. Em um comunicado publicado pelo PAC, Campagna foi definido como um “torturador de proletários”.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.